Hoje
o dia
pode bem ser uma de duas coisas, ou mais provavelmente:
um misto de ambas:
o acting out do medo – e a realização de como ele nos controla,
ao ponto de se tornar violência,
ou uma longa meditação sobre a Coragem necessária para Viver
e para correr os riscos de escolher viver de outra maneira.
A conjunção Vènus-Júpiter em Carneiro torna-se exacta;
o benéfico menor encontra o benéfico maior no signo da Coragem de Viver, para iniciarem um novo ciclo de relação entre si, que é como quem diz,
o Amor e a Fé reencontram-se dentro de nós,
cumprimentam-se, reconhecem-se, dão um beijinho,
e perguntam um ao outro
como vai ser
daqui para a frente
daqui em diante
– porque em Carneiro, para a frente é que é caminho
não há como olhar para trás
nem tomá-lo como medida
do que será,
porque em Carrneiro é tudo novo, e tudo acontece
pela primeira vez
embora
para o ser humano
seja muito difícil esquecer, fosse isso possível,
tudo quanto as nossas acções passadas originaram para nós próprios e as intepretações que lhes demos, tendo-se assim tornado o nosso destino
– o nosso passado –
o que dizemos a nós próprios que experienciámos e assim,
entre a memória e a projecção,
a expectativa aprendida sobre o que podemos esperar.
E dessa maneira, que podemos nós esperar senão
que o passado se repita,
se é ao passado que estamos abertos, tão mais do que ao futuro, ou pelo menos
tão ou mais abertos ao passado do que ao momento presente, notando-lhe as ressonâncias inevitáveis, mas acima de tudo as diferenças, com o passado que dizemos, pensamos, acreditamos que foi
– e o que quer que tenha sido para nós, foi isso que foi para nós –
e onde está a possibilidade de nos abrirmos a todas as novas possibilidades que se fazem presentes no momento presente
se ao menos as relacionássemos com o futuro
em vez de com o passado?
Onde está o novo, e qual é a diferença entre o novo e diferente,
e o prolongamento e a repetição do passado
se é com os olhos do passado que olhamos para o momento presente?
O momento presente e a abertura ao mistério é o nascimento de todas as possibilidades:
há que acercá-lo com Graciosidade, Interesse, e Confiança
– em vez de paranóia, pronóia:
a firme convicção de que o universo conspira permanentemente para nos cobrir de bençãos, e que o que quer que venha, é no nosso melhor interesse e a nossa melhor oportunidade, em vez de:
– meu deus, e se me acontece outra vez o que eu já disse a mim próprio tantas vezes que me aconteceu, a partir do que me aconteceu – já que o que me “aconteceu” (fosse eu irresponsável por isso) é bem mais o que eu digo que me aconteceu,
há lá ela outra versão da nossa verdade senão
a nossa versão da verdade
e há lá outra coisa que tenhamos experienciado a não ser
a nós próprios
no passado?
E no entanto
Vénus e Júpiter encontram-se: o Amor e a Fé,
o impulso de viver com bem-estar e prazer, traduzindo-se no processo de nos fazermos a nós próprios felizes e aos outros, de caminho, e à nossa maneira específica e pessoal,
e o impulso de crescimento, de acreditar num universo maior e ordenado, essencialmente bom e benéfico, que está aí para nos trazer todas as oportunidades e bençãos de crescimento, realização, alegria, entusiasmo, e a possibilidade de viver e vibrar em liberdade, fidelidade a si próprio e vibração genuína?
Vénus quer que amemos, começando por tudo o que somos, fomos, e podemos vir-a-ser (chamam-lhe amor próprio, auto-estima, e auto-interesse iluminado),
e Júpiter quer que cresçamos e nos ampliemos – a nós e aos nossos horizontes pessoais -, e nos alinhemos com verdades e princípios universais que estão para além da lógica mundana, da pequena mentalidade terrena, do campo de percepção de quem vive com os olhos postos no chão e não no céu, e que nos alinhemos pela pauta da “verdade”,
seja lá isso o que for,
a cada momento, para cada Um,
com a recordação de que mais além das pequenas e míopes verdades pessoais há uma verdade maior
à nossa espera
do lado de fora do quintal
assim queiramos e possamos nós crescer,
e crer,
para Ver.
Sem Carneiro, por estes dias, não há Vénus nem Júpiter.
Na Vénus e no Júpiter, por estes dias, temos de passar pelo Carneiro.
A condição de Vénus e Júpiter é Carneiro.
Carneiro está facilitado, e ampliado, por Vénus e Júpiter.
O Amor e a Fé encontram-se no signo da luta, do confronto, do derrubar de limitações.
No começar de novo,
de outro lugar,
e de outra maneira
com toda a aprendizagem do passado servindo de banco de memória e recurso de sabedoria aprendida a duras penas, não como
os limites auto-impostos de aprendizagens passadas e que funcionam (e funcionarão, se não forem vencidos)
como os nossos próprios carcereiros, e a ironia
é que somos nós que os empossamos.
Cinquenta palavras-chave para Carneiro, p.e.: conflito, guerra, início, nascimento, primavera, ser o primeiro, auto-afirmação, auto-motivação, entusiasmo, alegria, garra, vida, joie-de-vivre, desabrochar, explodir, invadir, marrar, investir
(como em “investir contra um muro”, não é investir no sentido de Saturno e Capricórnio, que é abdicar agora e adiar a recompensa para um suposto momento no futuro):
para Carneiro não há futuro, nem consequência:
só há Agora
e Agora
e Agora
e é desses Agoras que a Vida se faz, agora mesmo, momento a momento,
as we go along
improvisando
sem experiência prévia
pela primeira vez
sem noção nem bagagem
como um recém-nascido que experimenta e experiencia a vida pela primeira vez,
exposto
a todos os perigos, mas também
a todas as possibilidades
haja nele resiliência, mas acima de tudo,
a Coragem de experimentar correr o risco de viver
e transformar as cicatrizes em tatuagens e medalhas
sem precisar da carnificina violente de inscrever tinta ou espetar facas na própria pele,
– para isso já basta a Vida, se nos pouparmos a nós próprios no que pudermos –
e o curioso é que quanto mais nós o fazemos a nós próprios,
a tatuar-nos e a correr para pontas de faca, digo,
mais a Vida no-lo faz connosco,
nos espeta e fere e rasga e agride, que é só o reflexo da nossa própria agressão auto-inflingida, nós escolhendo facas e agulhas a dedo para as espetarmos em nós próprios
– pelo que pensamos, pelo que fazemos, pelo que escolhemos, pelo que não fazemos, pelo que não pensamos, pelo que não escolhemos,
e a Vida repetindo-lo e ecoando-lo connosco, fazendo connosco – o quê, senão?, o mesmo, em espelho e em eco –
e nós a queixarmo-nos da vida,
por ela fazer o mesmo que nós fazemos,
enquanto nós o fazemos inconsciente e compulsivamente
na expectativa de que o eco seja diferente, meiguinho, e o oposto
de um eco violento auto-dirigido,
a violência com que nos tratamos – ou dizemos a nós próprios que é a nossa própria experiência de Vida, mas que é só a nossa própria experiência de nós próprios,
do nosso inconsciente projectado na nossa própria vida
e assumindo, como dizia o Jung, a forma de Encontro, Relação, Acontecimento, ou Destino
a Ironia
de nos destruirmos e matarmos lentamente e esperarmos
que seja a Vida a proteger-nos, cuidar-nos, e salvar-nos
de nós próprios
enquanto
nós
espetamos a faca, o bisturi, o cutelo, a pistola, a bisnaga, no próprio corpo e depois nos queixamos
de doer.
De a vida fazer doer
enquanto nos espetamos, cortamos, cosemos, trituramos
com a violência de uma mente demente torturada pelo medo, pela culpa, pela raiva, pela impotência, pela zanga
(inconscientes, claro: mas algo do que temos consciência nos transtorna?!)
pela necessidade inconsciente de auto-punição,
pela tendência de bebermos nós o veneno na expectativa de que os outros morram,
no julgamento de que há algo errado ou inadequado com a Vida quando o que ela nos faz é devolver-nos a possibilidade de nos reconhecermos a nós próprios,
aos nossos “inquilinos” inconscientes:
padrões, traumas, memórias, experiências, aprendizagens, programações, crenças,
vida após vida,
vida após vida,
experiência após experiência,
programa após programa
ferida após ferida?
Ao mesmo tempo, e é por isso que este dia nos traz uma surpreendente meditação sobre o Amor, a Fé e a Coragem necessárias para Viver
e o acting-out do medo, e a realização de como ele nos mata, assassina, adia, paralisa, controla, e violenta
(e onde está o medo? na corda grossa esquecida no chão, na penumbra, ou na mente da pessoa que quando a vê a confunde com uma cobra venenosa pelos mecanismos da sua própria cabeça? É a corda a ameaça, ou a mente que a cria? É uma corda ou uma cobra? Para uns é só uma corda. Para outros é uma cobra. Para outros é só uma cobra. Para outros é só uma corda que por instantes lhes pareceu uma cobra. Para outros, a oportunidade de ter uma iluminação instantânea,
mas não como o café.
Instantâneo, digo:
porque Carneiro é rápido e impulsivo, mas nada nesta vida
se faz sem Trabalho, e muito menos:
a Vida.
O automático é o rio que nos arrasta de volta a tudo quanto conhecemos do passado:
a memória é a escriba da Alma, dizia o Aristóteles:
e hoje, muito “curiosamente”, interessantemente, ironicamente, oportunamente, e justatamente:
o dia começa com a Lua em Caranguejo, em quadratura aos planetas em Carneiro –
é o símbolo perfeito da luta entre a possibilidade a promessa do novo e o tropeço nas memórias antigas, que nos reactivam os medos e as aprendizagens hipnóticas auto-induzidas
(o meu pai abandonou-me à nascença, ao não me reconhecer, ou perfilhar, ou assumir, ou ao ir trabalhar para França?; ou deu-me a oportunidade de crescer e de me fazer a mim próprio, e desenvolver uma relação mais directa com Deus, Pai, já sem intermediários falíveis, imperfeitos, e humanos que nunca estariam à altura de honrar a qualidade de ligação que eu próprio viria a desenvolver por ter sido “abandonado” – ou confiado! – à vida, a mim próprio, à sorte, à protecção ou ao canibalismo invisível do colo da minha mãe?)
É que,
o que queres que digas a ti próprio que te “aconteceu”,
é isso – é precisamente isso que te aconteceu
já que assim o escolhes,
já que assim o decides,
já que assim o interpretas.
Gostava, eu nuno edgar,
de ser capaz de te explicar isto e sem demasiadas palavras, sabe deus:
mostrando-to
Mas
não posso nem me lo cabe:
é o tipo de coisa que não se ensina –
– só se aprende.
Quando há Vontade, Inteligência, e Amor:
o triangulo sagrado da Alma que ainda há-de nos salvar a todos
da estupidez das nossas próprias personalidades.
O que eu posso, e quero, é dar-te assim uns exemplos, um mote, uma inspiração
para a tua longa inescapável meditação destes dias:
a maneira como sem Amor e Fé não se vinga,
não se vence,
não se vive,
e todas as maneiras como tropeçamos em nós próprios e nas nossas distorções, crenças e percepções antigas que justificam que nos protejamos e nos defendamos de uma Vida que interpretamos nós como madrasta, especialmente
se tivemos experiências Cancerianas (infantis, familiares, emocionais, precoces, antigas) difíceis,
e todos as tivemos,
uns mais do que outros, mas todas à medida
dos medos e das feridas e da violência e do auto-abandono que cada Um de nós transporta e projecta e materializa
como experiência – como a sua própria experiência – de Vida,
por forma a poder tomar consciência do que É,
do que foi, ou pelo menos:
do que tem sido.
A Lua é uma trip down memory lane, a recordação viva de toda a história emocional vivida:
e a quadratura com Carneiro a dificuldade em avançar quando no Presente, necessariamente aberto ao futuro, somos assolados pelas recordações do passado, necessariamente
grilhões e vendas do Presente.
Dito de outra maneira,
avançar não é esquecer;
é processar as memórias, a sua natureza e função,
fazer de toda a experiência vivida repositório de sabedoria e aprendizagem – não da Vida, mas de nós próprios a deturpar a Vida à medida das nossas possibilidades, impedimentos, e artroses emocionais,
prisioneiros do medo, da memória, do julgamento, das atribuições de culpas e da nomeação de carrascos
exteriores
– símbolos projectados da nossa própria violência –
e Saturno fechando a sua passagem por Aquário e pelas ideias limitadoras que são as caixas mentais dentro das quais vivemos,
Mercúrio aproximando-se, para não nos deixar fugir sem fazermos um auto-diagnóstico e assumirmos a responsabilidade pelos pensamentos que nós próprios alimentamos,
alimentando assim as prisões
– ou as promessas de auto.libertação –
Plutão preparando-se para trazer a revolução e a destruição dos nossos próprios quadrados
– e o poder de transformar as próprias limitações –
Saturno preparando-se para entrar em Peixes, dissolvendo limitações antigas
Urano a meio (em pleno!) de Touro, trazendo-nos a possibilidade e a promessa de novos valores e novas formas pessoais de segurança pessoal, mas não sem “activarmos” esta Vénus que agora é Carneirenta, corajosa, ou então – um memé –
o Sol em Peixes ajudando à dissolução, à desintegração e à compreensão feita de Aceitação de tudo o que foi,
ajudando-nos e incitando-nos a nos abrirmos e aceitarmos Tudo o que será,
a Lua preparando dois dias e meio de auto-análise
(psique_análise!)
numa longa e muito subtil meditação por estes dias
sobre o medo, a violência auto-infligida e recebida de fora em projecção,
e acima de tudo –
sobre a Coragem necessária para Viver, Arriscar e Crescer
Ampliar e Amar
a promessa de novos horizontes e possibilidades de Ser;
a condição é reconhecer que cada novo momento, e especialmente por estes dias,
traz consigo a promessa de um universo inteiro de novas possibilidades
desde que seja o Coração, e não a mente demente, assustada, antiga e programada
(fria, duvidosa, separativa, calculista, analítica, programada para a sobrevivência a meio da repetição compulsiva de tudo – e apenas – o que já conhecemos e experienciámos)
a conduzir,
a ser escolhido como critério e Força,
recordando
que cada novo momento traz a promessa de Vida
(como as águas de Março)
e que nos cumpre a nós
acercarmo-nos de cada novo momento com Graça, curiosidade, expectativa positiva
(pronóia!)
e a Confiança de que se não fosse para a nossa Glória,
nem Deus nos seria, nem nós seríamos
Deus *

