Hoje o Bosque
amanheceu submerso na bruma, parecia
Avalon.
E o Sol amanheceu em trígono a Urano, nos graus 19º de Capricórnio e Touro, respectivamente.
Dei por mim
pé descalço e frio, café na mão, nevoeiro em volta, virado para nascente
rezando o nome completo da minha mãe, Olga Maria Correia Pedro de Almeida
quatro vezes,
às quatro direcções
e seus guardiões
pés descalços e frios, café quente na mão, o Coração aquecido pela inocência e espontaneidade do meu ritual
(não me lembro de o ter feito, assim, desde a sua morte física há mais de nove anos)
– nem mesmo sendo Peixes, ou talvez mesmo por isso – sem noção nem ideia da razão de me ter apanhado a fazer isso
deixei a bruma em paz – literalmente – e de repente caiu-me uma ficha.
Eu sabia que hoje era dia de Sol trígono a Urano: dia de futuro, liberdade, libertação, e abertura.
Dia de soltar coisas. De ser espontâneo. De ter insights e epifanias.
O senso de estarem a resolver-se coisas antigas (anteriores) para abrirem espaço e rumo ao futuro,
como quem retira um mioma
e fecha um ciclo
ou recebe uma carta
e resolve um assunto:
como quem grita um nome
e faz sei-lá-o-quê
Um dia
de soltar coisas –
como um anal retentivo que começa a tomar psyllium husk.
Mas depois caiu-me a ficha, neste dia de epifanias e coisas soltas (melhor, soltadas):
o Sol está no grau exacto da minha Lua natal, e eu sem “querer” dei por mim
a rezar o seu nome completo
e a soltar a minha mãe *
Que giro: toda a gente sabe que Urano trígono à Lua é uma boa fase (porque demora meses!) para soltar apegos, memórias, ligações, e tudo quanto orbite o arquétipo materno-lunar;
mas darmos por nós, no dia exacto em que o Sol, regente do nosso Ascendente, activa esse trígono a soltar o nome da mãe ao vento e à bruma, devolvendo-a à guarda das 4 direcções,
é como quem diz: se estava na hora, chegou o momento (o trânsito rápido, de um dia, do Sol a activar um aspecto que demora meses)
e eu não páro de me comover e deslumbrar com a sincronicidade da Vida
que se cumpre,
mesmo quando não temos noção consciente nenhuma até que a coisa se dê;
como Deus a servir o almoço e de repente nós apercebermo-nos, quando olhamos para o relógio,
que é a hora exacta de almoçar
e pensar
que ainda duvidamos do Amor e do Rigor
com que a Vida, Grande Mãe, nos cuida e nos arruma enquanto nos confiamos, pé descalço e coração quente,
ao seu abraço – e em manhãs como a de hoje –
à sua bruma *

