Hoje que Saturno fica estacionário,
e se prepara para ficar retrógrado,
há um abrandamento – para não dizer congelamento – no Tempo.
Tempo de abrandar, e de (ir)romper os parâmetros habituais do Tempo,
regressar ao passado e antecipar o futuro,
como no Christmas Carroll do Charles Dickens:
o homem assaltado pelos fantasmas de natais passados, presente, e futuros.
Só que não precisa ser assalto:
pode ser visitação.
Podemos ser nós a revisitar o tempo e a maneira como nos deixámos congelar ao longo dele;
podemos ser nós a observar onde foi que nos protegemos demasiado, nos fechámos demasiado, nos defendemos demasiado,
onde fizemos as artroses,
onde cruzámos os braços à frente do peito – não digo em birrra e protesto, digo para protegermos o lugar vulnerável do nosso próprio Coração;
onde decidimos que não íamos, nem queríamos, sofrer ou sentir mais
não voltar a ser defraudado, agredido, traído, desapontado, abusado, magoado, ferido, trespassado
pelas flechas e farpas que espetámos, sem o reconhecer tantas vezes, em nós próprios,
para nos cutucar e ver se reagíamos, se nos acomodávamos, se despertávamos, se nos amávamos, o quanto tolerávamos,
da dor infligida pela nossa própria dor, pela nossa cegueira, pela nossa rigidez, pelos nossos medos, pela nossa culpa, demissão e irresponsabilidade;
as farpas e as flechas
que espetáramos em nós mesmos para ver se nos acordámos, socorríamos ou valíamos a nós mesmos,
para nos recordar que tudo é Caminho e que estamos sempre a caminho,
que nunca paramos, que o segredo
é nunca parar, é continuar, fazendo o nosso melhor por continuar a abraçar
e aceitar
a Vida como um fluxo de aprendizagens e experiências,
rumo à maturidade
rumo à responsabilidade
rumo à paternidade e autoridade
sobre nós próprios
o poder de nos dirigirmos e de comandarmos
o rumo das nossas próprias vidas
sem ficarmos
encostados temerosos encolhidos e estagnados
em lugares desconfortáveis
e pouco nutritivos
pouco inspiradores
demasiado apertados
para as asas do nosso Espírito.
Talvez sejamos nós
a abrandar o fluxo do tempo ou a concentrar a percepção
nos flocos de neve cristalizados no inverno da nossa floresta interior,
a ver
por onde flui o calor e a Vida,
o que congelou e secou porque não é para sobreviver ao inverno,
o que é de preservar e manter, para que possa continuar,
e retomar de um novo lugar e com um novo ânimo
à medida que a primavera nos venha descongelar
outra vez
uma e outra vez, com a floresta renovada
derretida, depois de congelada
reconfigurada, mais fértil, mais despida, e purificada
enquanto Saturno retrograda em Peixes e nos convida a olhar para dentro:
onde foi que rigidi.ficámos
onde foi que nos protegemos além do saudável, do ideal, ou do necessário,
onde foi que nos tornámos juízes amargos e cínicos da vida
por dor, senso de injustiça, ou vulnerabildade
ás dores inevitáveis de quando estamos vivos,
a aprender a manter o Coração aberto perante os apertos da Vida.
A vida é trágica, mas não precisa ser catastrófica,
e até em catástrofe há uma estrofe –
– saibamos nós reconhecer a beleza e a poesia, a oportunidade e a aprendizagem
nas dores e desapontamentos
que nos fizeram fechar um dia *
É um processo para os próximos meses, mas hoje começa a intensificar:
onde foi que congelei, preciso e quero
descongelar *


