17 de Junho de 2023 – insight diário – caFé da manhã

Hoje que Saturno fica estacionário,

e se prepara para ficar retrógrado,

há um abrandamento – para não dizer congelamento – no Tempo.

Tempo de abrandar, e de (ir)romper os parâmetros habituais do Tempo,

regressar ao passado e antecipar o futuro,

como no Christmas Carroll do Charles Dickens:

o homem assaltado pelos fantasmas de natais passados, presente, e futuros.

Só que não precisa ser assalto:

pode ser visitação.

Podemos ser nós a revisitar o tempo e a maneira como nos deixámos congelar ao longo dele;

podemos ser nós a observar onde foi que nos protegemos demasiado, nos fechámos demasiado, nos defendemos demasiado,

onde fizemos as artroses,

onde cruzámos os braços à frente do peito – não digo em birrra e protesto, digo para protegermos o lugar vulnerável do nosso próprio Coração;

onde decidimos que não íamos, nem queríamos, sofrer ou sentir mais

não voltar a ser defraudado, agredido, traído, desapontado, abusado, magoado, ferido, trespassado

pelas flechas e farpas que espetámos, sem o reconhecer tantas vezes, em nós próprios,

para nos cutucar e ver se reagíamos, se nos acomodávamos, se despertávamos, se nos amávamos, o quanto tolerávamos,

da dor infligida pela nossa própria dor, pela nossa cegueira, pela nossa rigidez, pelos nossos medos, pela nossa culpa, demissão e irresponsabilidade;

as farpas e as flechas

que espetáramos em nós mesmos para ver se nos acordámos, socorríamos ou valíamos a nós mesmos,

para nos recordar que tudo é Caminho e que estamos sempre a caminho, 

que nunca paramos, que o segredo

é nunca parar, é continuar, fazendo o nosso melhor por continuar a abraçar

e aceitar

a Vida como um fluxo de aprendizagens e experiências,

rumo à maturidade

rumo à responsabilidade

rumo à paternidade e autoridade

sobre nós próprios

o poder de nos dirigirmos e de comandarmos

o rumo das nossas próprias vidas 

sem ficarmos

encostados temerosos encolhidos e estagnados

em lugares desconfortáveis

e pouco nutritivos

pouco inspiradores

demasiado apertados

para as asas do nosso Espírito.

Talvez sejamos nós

a abrandar o fluxo do tempo ou a concentrar a percepção

nos flocos de neve cristalizados no inverno da nossa floresta interior,

a ver

por onde flui o calor e a Vida,

o que congelou e secou porque não é para sobreviver ao inverno,

o que é de preservar e manter, para que possa continuar,

e retomar de um novo lugar e com um novo ânimo

à medida que a primavera nos venha descongelar

outra vez

uma e outra vez, com a floresta renovada

derretida, depois de congelada

reconfigurada, mais fértil, mais despida, e purificada

enquanto Saturno retrograda em Peixes e nos convida a olhar para dentro:

onde foi que rigidi.ficámos

onde foi que nos protegemos além do saudável, do ideal, ou do necessário,

onde foi que nos tornámos juízes amargos e cínicos da vida

por dor, senso de injustiça, ou vulnerabildade

ás dores inevitáveis de quando estamos vivos,

a aprender a manter o Coração aberto perante os apertos da Vida.

A vida é trágica, mas não precisa ser catastrófica, 

e até em catástrofe há uma estrofe –

– saibamos nós reconhecer a beleza e a poesia, a oportunidade e a aprendizagem

nas dores e desapontamentos

que nos fizeram fechar um dia *

É um processo para os próximos meses, mas hoje começa a intensificar:

onde foi que congelei, preciso e quero

descongelar *