Hoje
é um dia crítico, em vários sentidos;
um dia de culminar, e transição.
Convida-nos a olhar para os fins de ciclo, os fins e as despedidas necessárias,
as nossas resistências às transformações necessárias
e a necessidade de recuperarmos alguma forma essencial de poder
sobre o que depende de nós, nomeadamente,
o poder para lidar com o que É,
independentemente do que gostaríamos
que fosse.
O Sol, logo à tarde, ingressa no grau 0º de Caranguejo: é o Solstício de Verão no nosso hemisfério, o dia mais longo do ano, e simboliza a vitória da Luz sobre as trevas.
Mas antes disso,
está no último grau de Gémeos e numa relação difícil com Plutão, que é como quem diz,
a integrar as dualidades inevitáveis de que a Vida é feita,
as que nem sempre assumimos, encaramos,
e de que nem sempre gostamos.
Gostamos
de estar à altura de nós próprios, no nosso melhor:
como é que lidamos quando nos falhamos a nós mesmos?
Gostamos
de sucesso, ganho, definição, luz, poder;
como é que lidamos com o que sentimos ou rotulamos como fracasso, indefinição, trevas, e impotência?
Queremos
uma boa noite de sono;
como é que nos violentamos e sofremos e nos angustiamos e nos obrigamos a dormir, se não conseguimos dormir com uma insónia?
Três gramas de magnésio depois, duas de melatonina e cinco chás de camomila depois,
continuamos às voltas às voltas amaldiçoando o momento porque tínhamos na cabeça que deveríamos estar a dormir.
Quero dizer,
nem dormimos,
nem nos abrimos ao momento e a tudo o que ele nos poderia trazer, se não estivéssemos apenas, e tão, focados em querer dormir.
Como é que dançamos com a Vida, momento a momento, sem tropeçar nela querendo que ela seja (fosse) outra coisa – naquele momento?
Podemos reconhecer a nossa falta de flexibilidade, e maleabilidade, perante as circunstâncias e os acontecimentos,
a nossa tendência em querer encaixar, e encaixotar, as coisas que insistem em ser elas próprias apesar de nós termos outros planos para elas?
Podemos dançar à volta em vez de colidir de frente?
É preciso estar muito centrado para andar a desfrutar da periferia, e na periferia, quanto mais vamos para um lado, mais somos puxados para o outro, como um pêndulo, e não será essa uma forma da Vida nos recordar
que é no Centro que está a virtude, e estamos nós, apesar de nunca estarmos nem permanecermos muito tempo no mesmo sítio?
Podemos nós remar o barco da nossa vida com dois braços,
o da Vida e o da Morte,
companheiros inseparáveis,
e guiá-la com dois olhos
– o do rigor, e o da compaixão, o do pai e o da mãe, o da firmeza e o da maleabilidade, o da luz e o das trevas, o do anjo e o do demónio –
para nos ser mais fácil, para não dizer: possível, dançarmos e sermos embalados pelos ventos?
Que o vento que vem da montanha nos traga clareza.
Que o vento que vem do mar nos traga liberdade.
Que o vento que vem do deserto nos traga o silêncio.
Que o vento que vem da selva nos traga a memória.
Que tudo possa ser reconhecido como vento, brisa, tempestade ou ciclone
passageiros.
Que tudo possa ser abraçado como passageiro.
Que tudo seja onda que passa,
atravessa,
e passa.
Que tudo o que é impermanente possa ser reconhecido como tal.
Que cada Um de nós possa habitar a sua casa iluminada enquanto coisas acontecem à volta,
enquanto escrevemos no nosso diário e os ventos sopram lá fora.
Que venha o calor. O frio. A chuva. E a seca.
Que venham as estações, a próxima estação.
Vem aí a próxima estação.
Possamos nós saber despedirmo-nos também desta *

