Hoje
o dia começa com a Lua em Virgem em trígono ao seu dispositor Mercúrio em Touro,
o que lhe dá uma tremenda disponibilidade – quiçá até vontade – de fazer alguma coisa,
mas o Sol em Gémeos em quadratura a Saturno em Peixes pode não saber bem o quê.
Hoje
dei por mim a pegar num livro do Schopenhauer, sem saber bem por quê:
chama-se “A arte de vencer uma discussão sem precisar de ter razão”;
talvez tenha achado piada ao título, à perfeita congruência entre o tema, o título, e os trânsitos próprios do dia
(Sol em Gémeos em quadratura a Saturno em Peixes? Mais literal ainda seria se fosse o Mercúrio em Peixes em quadratura a Saturno em Gémeos, como aquela amiga que anda sempre a perguntar aos outros o que fazer mas nunca ouve, ou concede às respostas que lhe dão. Seria engraçado se não fosse dramático: pergunta sempre o que deve fazer, e depois responde sempre que “pois, mas isso não”.
Neste caso, é a arte de fazer os outros sentirem nunca terem razão, que é outra forma de expressar a rigidez mental com que nasceu, a dúvida profunda sobre si própria que sempre tenta infligir aos outros – para que sintam o que ela sente, por defeito, e que se chama ‘inadequação’ – e a procura de uma resposta específica que, não sendo a única que ela admitiria, dentro das suas próprias limitações mentais, também não a aceita de fora porque não lhe cabe, e nada lhe cabe que não lhe exista já lá dentro, o que é um absurdo, um paradoxo, e uma tragédia
– levanto-me entretanto para calçar umas pantufas: Saturno em Peixes também significa ‘pés frios’ –
e regresso para a estocada final:
para quê, nesse caso, sequer falar?
fim de parêntesis)
Com o Sol em quadratura a Saturno, independentemente dos signos envolvidos, há sempre a necessidade de dizer um “não” a qualquer coisa, tipicamente a alguém:
há que estruturar as coisas para manter umas dentro e outras de fora, por exemplo,
seleccionar do fundo da gaveta as canetas que escrevem e ficam, e as que podem – e devem – ir à vida
(o Schopenhauer aqui ao lado à espera que pegue nele, os pezinhos a aquecerem, o dia também)
ou então,
os projectos que ficam, os que são possíveis, viáveis, ou importantes,
e os dispêndios inúteis ou inglórios de energia com o que poderia também ser, mas porque carga hão-de ser,
se não nos servem,
se não valem a pena,
ou não nos servem para nada?
A Lua em Virgem em trígono a Mercúrio cheia de vontade de fazer coisas, mas coisas que valham a pena,
o Sol a ter de escolher e dizer sim a umas coisas para poder dizer não a outras, ou vice-versa,
a consciência de que todos os recursos são escassos e limitados, daí a sua importância
(do que valeria alguma coisa que está absoluta e permanentemente disponível – até ver – como o ar (o oxigénio) que tomamos por garantido? É só quando asfixiamos que o valorizamos,
e à água, quando temos sede).
Então hoje pode bem ser o dia em que reconhecemos a importância de valorizar o que tomamos por garantido,
tenhamos ou não
razão.
… um dia acordamos a querer mesmo ler Schopenhauer,
e não temos livro nenhum;
é aí que entra o arrependimento do que pudéramos ter feito
e nunca chegáramos a fazer *
Tudo o que poderíamos ter sido,
e nunca chegámos a ser *

