Na ingrata pretensão de termos algo como certo nesta Vida,
– a não ser a garantia de que ela – como nós – sempre se renova, reinventa, e muda de forma
(há quanto tempo não vês o mundo por um caleidoscópio?) –
e especialmente nesta fase,
em plena travessia,
certo certo ou quase certo – se estamos Vivos – é que para trás ficaram já as visões antigas, já desactualizadas,
do que críamos viria a ser a nossa vida,
do que sabemos instintiva ou intuitivamente virá a ser a Vida,
ou precisamos nós de nos tornar,
se queremos estar Vivos.
Não quer dizer que tenhamos já mudado de Casa,
ou abandonado em definitivo os escombros de uma velha arquitectura social, e de mentalidade, em colapso
(é uma boa síntese destes Tempos)
Mas já se romperam, ou começaram a dissolver,
Os fios que nos prendiam – prenderam? – a esse passado.
E agora vamos em pleno voo, ou pelo menos,
Estamos a ser empurrados para a beira do precipício,
a ver se aprendemos de vez a Confiar e a Voar.
Não há como voltar atrás
(ou haverá, mais à frente, essa necessidade? – nem que seja para recuperar qualquer coisa esquecida ou mal tratada? – mas isso é para depois,
e a Vida, já se sabe, é momento a momento).
Certo certo ou quase certo, se estamos Vivos,
É que estamos a caminho de um futuro desconhecido,
Mas profundamente desejado, intuído, que nos chama
Desde dentro
E para fora.
O único método é continuar a caminhar,
Ou aprender a voar
Abrir as asas e aderir às correntes de Ar que nos conduzem o Fogo,
O entusiasmo, a alegria, a fé.
Não é obrigatório queimar as pontes atrás de nós,
Necessário é mantermo-nos a caminho.
De modo que hoje aqui fica a oração que vais dar por ti a repetir sem dares por isso,
Pelo menos durante os próximos tempos:
É a minha adaptação de um Salmo,
Porque toda a gente sabe que na Bíblia, o Cristo és Tu e a tua Alma
Ansiando pelo reencontro consigo própria.
Reza assim:
“Oh deus, meu deus * eu velo junto a Vós desde a primeira luz.
De Vós tem sede a minha alma,
A minha carne por Vós se consome de muitas maneiras.
Nesta terra deserta, e sem caminho, e sem água,
Eu me apresentei diante de Vós, no lugar santo, para contemplar o vosso poder,
E a vossa glória.
Porque a vossa misericórdia é melhor que as vidas: por isso os meus lábios vos louvarão.
Assim eu vos bendirei enquanto viver:
E estenderei as minhas mãos em vosso nome.”
Estenderei as mãos, e avançarei meus pés:
Porque meu deus, meu deus,
A vossa Alma sois Eu,
Mesmo que ainda não me tenha reconhecido
Como tal.


