alegoria do bar – revisitando os (re)encontrões a Peixes

Um soldado, um general na pré-reforma, uma bailarina de Can-Can e um poeta alcoolizado entram num bar.

Na verdade, o poeta já lá estava há muito tempo – há anos, quase uma década – a beber e a delirar, a um canto perto da porta, com um sorriso de mona lisa estampado no rosto (estaria, realmente, a sorrir?), e o general também já lá estava pelo menos há um ano, e pela sua expressão séria de fiscal das finanças a realizar uma busca no gabinete de um ministro, ou de inspector da asae numa casa de putas (e que talvez não sejam tão diferentes assim – o gabinete do ministro e o gabinistro do minete – dislexias à parte)

o general tinha o ar circunspecto de quem tentava perceber o que se passava naquele bar, ou pelo menos: tinha o ar de quem não estava ali para beber, nem divertir-se.

E isso, só por si, pareceria estranho – se ali estivesse alguém para julgar.

A bailarina tinha chegado há pouco tempo: estava de passagem; e o soldado (ou seria um mercenário?) tinha acabado de entrar durante a noite; durante a última noite, para ser mais preciso.

Estou cansado, disse o soldado, venho de uma longa campanha por onze cenários de guerra. Já me mandaram fazer de tudo e raras vezes encontrei a autonomia para escolher as minhas próprias batalhas. A última vez que me lembro de o ter feito já foi… ora deixa ver… sei lá!, há tempo demais.

Os outros permaneceram em silêncio. A bailarina foi a primeira a interrompê-lo. O general, se tivesse falado, provavelmente teria perguntado o que é isso de tempo demais. Mas permaneceu calado. E a estudar a situação, ou então, simplesmente a respeitar o seu próprio silêncio, o seu próprio ritmo, ou a sua própria necessidade de que mais qualquer coisa acontecesse antes de responder.

Pois eu, olha, estou desiludida. Nunca tive do meu público a resposta que esperava; e o amor, olha, também não me tem corrido nada bem. Tem sido desapontamento atrás de desapontamento. A pessoa dá-se e entrega-se, sempre acreditando, e olha, nunca serve de nada: nem no amor, nem na arte.

O general observava-os e ao diálogo que começava a estabelecer-se, como se os estudasse, ou avaliasse. Ou então, sabe-se lá, como se esperasse o momento certo para intervir ou se manifestar.

O poeta não parecia prestar especial atenção a nada do que ali acontecia. Parecia simultaneamente muito concentrado, mas com os olhos abertos, como se procurasse escutar tudo quanto ali se passava com muita atenção – e com um sorriso imperceptível, de buda, no rosto – mas ao mesmo tempo era como se estivesse alheado daquilo tudo e noutra dimensão, senão do espaço, pelo menos do tempo, e olhava através deles, como se mirasse o infinito, simultaneamente abarcando-os com o olhar e ignorando-os, ao mesmo tempo. Talvez fossem efeitos do álcool, da concentração, do alheamento, de estar a ver coisas que mais ninguém via; ou então, era simplesmente um imbecil quasi-divertido com tudo-tudo mas impressionado por nada em particular. Uma espécie de presença ausente que tudo abarca e, ao mesmo tempo, tudo ignora. E talvez por isso quase se confundisse com o próprio ambiente do bar.

Ninguém lhe ouvia nada.

O soldado bebeu de um só trago a bebida estranha que lhe serviram, e que ninguém sabia o que era. Muito menos ele, que tinha acabado de ali chegar e não conhecia – ou já não recordava – os costumes daquele bar. Mas começou a olhar para a bailarina com os olhos brilhantes – seria da bebida? – e manifestou interesse em conversar com ela, sob o olhar circunspecto do general e o ar esgazeado do poeta.

Já aqui estás há muito tempo?, perguntou o soldado, e ela respondeu: nem por isso. Cheguei há uns dias. E por mim, se queres saber, não me importo de aqui ficar. A não ser que me expulsem. Isto lembra-me um bocado os ambientes a que estou habituada, e também não tenho mais para onde ir. Já passei por tudo, já passei por tantos sítios, que não estou a ver para onde possa ir a seguir.

O soldado anuía enquanto ela falava e, se lhe ocorrera comentar alguma coisa, não o fez. Ao mesmo tempo, parecia estar a pensar noutra coisa, mas sempre com os olhos atentos e brilhantes poisados sobre ela. Estaria a pensar na sua própria história?, na história dela?, no que faria ele – ou ela – ali, ou estaria a começar a pensar nela?

Talvez a comunicação, e o entendimento espontâneo entre ambos não fosse senão – e mais uma prova –

Ela continuou, encorajada por estar a receber atenção, e daquela qualidade de atenção silenciosa que lhe dava espaço a expressar-se.

Isto é como se fosse uma espécie de última paragem – pelo menos para mim, percebes? Mas se queres saber, até tenho a sensação que é isso que acontece com todos que aqui vêm parar. Como se fosse o fim da linha onde vêm todos desembocar

O soldado pensou: percebo bem o que dizes, mas não concordo nada com isso. Quer dizer que este bar é o fim da linha? Como assim? Eu não vim aqui para acabar os meus dias, só me sinto cansado e a precisar de me distrair, ou recompor

Daqui por horas há-de ser noite outra vez, disse o general, permitindo que lhe ouvissem a voz pela primeira vez. Grave, seca, sem emoção – como se constatasse simplesmente o óbvio, mas dando a entender – paradoxalmente – que aquilo haveria de querer dizer alguma coisa de muito importante. Mesmo sem se aperceberem disso, e muito menos o por quê, estremeceram os dois, o soldado e a bailarina, perante a constatação do óbvio – ou o tom com que fora verbalizada,

o poeta sorriu, bebeu mais um trago, e voltou a poisar o copo como se repetisse simplesmente um ritual muito antigo ao qual estava habituado, e continuou a sorrir, sem ninguém ter a certeza se estaria a ouvi-los, e a olhar através dos outros, enquanto o general repetia

daqui por horas há-de ser noite outra vez

o soldado e a bailarina mexidos, subitamente, pelo comentário – possivelmente de formas diferentes, mas ambos visivelmente – imperceptivelmente – reagiram ao comentário, ou àquilo em que cada um pensou com a observação do general

denunciados pelo movimento do corpo, ou pela mudança de expressão,

a bailarina baixando os olhos e o soldado perscrutando rapidamente com os olhos as paredes em redor, a ver se via algum relógio que lhe desse noção de onde estava, de onde estavam,

mas não encontrou nenhum: o que o fez pensar que naquele bar não havia tempo – havia era um general na pré-reforma que fizera alusão a isso.

O soldado levou à boca o segundo copo, que despejou de golpe, e de olhos fechados, e com o esgar de quem tinha acabado de beber algo muito amargo – como sumo de limão -, ou de sabor muito forte, como gasolina sem chumbo ou vick vaporub derretido.

E em rigor, não havia como saber exactamente o que aquilo era. Nem se a sua expressão contraída tinha a ver consigo, com o desabafo que ouvira, com o que estava a beber, ou com a súbita recordação de que o tempo passava,

apesar de não haver relógios à vista.

E o senhor general, se me permite, qual é a sua história?, perguntou o soldado dirigindo-se directamente ao homem por detrás da patente. E para suavizar o inquérito para que se parecesse mais com o entabulamento de uma conversa de circunstância do que com a interpelação directa de uma autoridade, acrescentou: o senhor está aqui há muito tempo?

O poeta bebeu outro gole e continuou a sorrir, como se no seu delírio indecifrável pensasse qualquer coisa como “estes estão todos a delirar”, mas manteve simplesmente o sorriso (seria mesmo um sorriso?, ou a manifestação física de alguma intoxicação, ou condição psiquiátrica? ninguém saberia responder) e o olhar, simultaneamente oceânico e vazio, mirando através dos outros para a imensidão (ou seria para a parede sem relógio? ninguém saberia dizer)

O general olhou o soldado nos olhos e manteve o contacto visual, firme mas não hostil, como se esperasse qualquer coisa, avaliasse o interlocutor antes de responder, ou como se o olhar assim, só por si, bastasse como resposta.

Ao fim de algum tempo, e de o soldado coçar a cara, a têmpora direita e o queixo, por onde escorria uma gotícula de suor invisível aos demais – mas sem nunca chegar a desviar o seu próprio olhar do do general

-seria um hábito da tropa? –

o general, sempre de olhos poisados nos olhos do soldado, respondeu

cheguei quando foi preciso

e depois acrescentou

e só me vou embora quando fizer falta.

A bailarina pareceu divertida com a resposta que ouvira.

Quando fizer falta,… o quê?, pensou o soldado, quando fizer falta noutro lado, ou fizer falta sair daqui, ou… quando fizer falta, o quê, pensava o soldado, mas não verbalizou nenhum dos pensamentos

-com sorte o outro recebê-lo-ia por telepatia e não precisaria de chegar a verbalizar nada do que pensava para poder comunicar (isso sim, isso é que seria!) –

e, fosse como fosse, já estava habituado a receber das patentes superiores instruções, comandos e informações que se habituara a não questionar nem compreender nas suas implicações mais vastas – apenas a cumprir e executar, ou no mínimo – anuir, calar, e responder

sim, senhor

de modo que perante a resposta do general, o soldado respondeu

sim, senhor

e a bailarina parecia simultaneamente divertida, chocada, indignada, e incrédula perante a anuência do soldado e o absurdo caricato daquela interacção

olhou na direcção do soldado, esperando o resto da resposta

-ou uma nova pergunta

mas o soldado só disse

sim, senhor

e o general comentou:

parece que nos estamos a começar a entender.

E essa observação pareceu surtir um efeito directo sobre a bailarina, que abriu um largo sorriso e pareceu subitamente feliz

isso é bom, estamos a começar a entender-nos

enquanto o poeta sorriu – sim, desta vez era inequívoco, era mesmo um sorriso; apesar de parecer que estava num transe qualquer, ele afinal estava a ouvir e a prestar atenção a tudo quando ali se passava, embora continuasse a olhar através deles todos e sem se focar em nenhum deles em particular, como se estivesse a olhar em frente enquanto aconteciam coisas ao seu redor, coisas das quais se apercebia mas não parecia prestar-lhes especial atenção; era como se as coisas ali estivessem mas lhe fossem relativamente não importantes, ou então:

como se o poeta, ali estando, em rigor não estivesse, ou pelo menos – não completamente

mas estava, e a prova

é que quando a bailarina de can-can sorriu, o poeta sorriu também, de forma inequívoca, e ninguém saberia dizer com certeza que não havia naquele sorriso um misto de alívio, ternura, e satisfação.

Então e agora o que fazemos?, perguntou o soldado – que era homem habituado à acção, para não dizer, viciado – a ninguém em particular, ou como se simplesmente perguntasse para o ar, ou às paredes do bar, ou aos relógios que ali não estavam,

então agora o que fazemos?

a pergunta ecoando no ar, e todos – a bailarina e o soldado, certamente e pelo menos – esperando que alguém respondesse

então agora o que fazemos?

Olharam todos – todos, menos o poeta alcoolizado – na direcção do general pré-reformado, na expectativa (ou na crença, talvez seja mais acertado dizê-lo assim) que ele teria o que dizer, saberia o que fazer, que teria uma resposta para eles

e ficaram suspensos enquanto o eco da pergunta se dissolvia no éter, ou contra as paredes do bar, dando lugar ao silêncio que sempre ali houvera ainda antes de qualquer um deles chegar

e se algum deles – para não dizer que era sobre o general que estavam depositadas as esperanças, as expectativas, e a responsabilidade de responder à pergunta – fosse responder à pergunta

então agora o que fazemos?

talvez um deles respondesse

agora dançamos e fazemos o amor, ou então

agora lutamos por qualquer coisa e fazemos a guerra

ou então

não fazemos nada, seus tontos

dependendo, claro está, de quem respondesse:

o soldado (ou seria missionário?), a bailarina de can-can ou o poeta alcoolizado

mas era do general que esperavam a resposta, provavelmente

porque a bailarina olhava para o soldado e o soldado para o general

enquanto o poeta olhava o vazio, através deles todos

e o general, habituado a que lhe exigissem respostas e que soubesse sempre o que fazer,

curiosamente, olhou para o poeta e dirigiu-lhe a pergunta:

então agora, o que fazemos? afinal, o bar é seu

-o general sabia coisas que mais ninguém sabia, e que ele evidentemente não revelara. Provavelmente também porque ainda não tinha tido tempo, ou necessidade, de o fazer – e os outros já o iam, apesar dos poucos indícios, conhecendo

Então agora o que fazemos?, é uma boa pergunta, respondeu o poeta permitindo que lhe ouvissem a voz pela primeira vez,

o melhor

continuou ele

é perguntar ao chouriço que esteja a ler este texto, afinal

o bar é dele

chama-se Peixes

a bailarina é Vénus, o soldado é Marte, o general é Saturno

e eu só aqui estou a tomar conta do bar para lembrar que aqui ninguém faz nada sem minha permissão

-o paradoxo é que eu sou, por natureza e predisposição, permissivo e liberal, e por mim, desde que bebam, podem fazer o que quiserem

mas o dono – o verdadeiro dono – do bar é o sonhador que nos sonhou, e que nos pode usar para criar a história que quiser

pôr nos copos o que quiser,

fazer-nos sentir o que puder,

o bar é dele

-tás a ouvir?, se me estás a ler?, o bar é teu

estamos todos aqui no bar de Peixes à espera dos teus sonhos, porque toda a gente sabe que eu escrevi, numa das minhas encarnações, que o sonho comanda a vida,

e noutra, que o poeta é um fingidor

e noutra ainda que ainda que eu fale a língua dos anjos, já não me lembro

sirvam-se de mais um copo enquanto esperam que nos diga, o dono do bar, o que é que quer de nós

eu por mim falo, estou aqui há quase uma década

e o cabrão ainda não concretizou uma data de sonhos.

Ainda bem que aqui temos um soldado, finalmente, e um general a postos, embora já quase na reforma;

pode ser que com a faísca entre nós

e uma boa comunicação

a gente faça qualquer coisa de jeito

em nome do sonhador;

ele tem é que sonhar, pah,

ele tem é que sonhar *

deixem-se estar sentados e bebam mais um copo,

pode ser que ao ler isto,

o gajo se decida ou inspire

a Criar *

… Saturno está quase novamente directo em Peixes, e depois de meses de revisões, hão-de estar prestes a surgir

novas ordens, novos comandos e decisões, ao serviço do Sonhador.

Do poeta.

Do bêbado.

Ou lá o que fôr *