Isto de uma pessoa se propor e desafiar a uma transformação consciente e valente – pelo menos no meu caso, comigo, e na subjectividade da minha própria experiência – é como abrir uma guerra em várias frentes em simultâneo.
A guerra já não é de hoje – na verdade, toda a minha vida tem sido uma guerra; ou pelo menos: uma dança – entre as chamadas “más tendências” – que eram, para o Novalis, a melhor maneira de receber uma educação multi-facetada, por um lado; e os impulsos regenerativos da minha própria alma, por outro: a responsabilidade pela minha própria vida e encarnação, o esforço em fazer as coisas mais correctas, necessárias, ou saudáveis. Uma dança, como lhe chamava o Alan, entre a intoxicação e a sobriedade; uma dança, dir-se-ia, entre Neptuno e Saturno: entre o caos e a ordem, entre o esquecimento e a recordação, entre a dissolução e a concretização, entre a perdição e o encontro. Entre a tendência a perder-me, e a necessidade de me encontrar. A necessidade de me voltar a perder, depois de me ter possuído por um instante; e a necessidade de regressar a mim próprio, depois de me ter perdido.
E de nunca ter, até agora, visto o fim a esta dança: por muito que se prolongue um dos seus dois extremos, sei que é uma questão de tempo até vir o outro, a tomar conta da ocorrência, como um inevitável yang depois de muito yin e do yin inexaurível depois de demasiado yang.
E entre ambos – pólos, ou princípios – me tenho equilibrado, perdido, descoberto e cumprido o melhor que sei e posso, como se fosse, eu próprio, feito da mesma Vida que flui entre opostos complementares.
E uma das estratégias que passei a utilizar para lidar melhor comigo próprio – ou para sobreviver a mim mesmo, por que não dizê-lo assim? – foi começar a aproveitar pretextos, ondas, oportunidades para declarar inícios, manifestar realidades, anunciar acontecimentos e ficções, celebrar energias, assinalar renascimentos, baptizar datas com nomes de planetas em vez de santos padroeiros desde que comecei a descobrir o quão de energético, rigoroso e previsível tem a Vida, desde que descobri a astrologia aos quinze anos. Bem, em rigor não comecei a estudá-la a sério até aos vinte – vinte e picos -, mas a verdade é que também já tenho quase cinquenta e já levo trinta anos – mais – a estudar e a observar ciclos:
Luas novas. Eclipses. Ciclos sinódicos. Trânsitos. Conjunções. Ingressos. Equinócios. Solstícios. Punhetas. Mais conjunções. Efemérides. E estações. E planetas.
Dá-se uma conjunção? É um ciclo novo. O planeta muda de signo? É outra frequência. Muda de casa? É outro assunto. Há um retorno? Nova oportunidade. O mercúrio retrograda? A gente cala. O mercúrio passa a directo? A gente fala. Saturno passa a directo? A gente organiza. O Saturno retrograda? A gente perde a rédea à situação. É Solstício? A gente pára, como o Sol. Equinócios? Ingressos? Vazios de curso? A gente improvisa. A gente inventa. A gente aproveita. E às vezes, a maior parte das vezes: a gente falha, peca, e fica aquém. Incluindo, de tudo quanto inventa para se superar a si mesmo, e do tudo que argumenta para se enganar a si mesmo.
Se formos a ver bem, há sempre pretextos, e momentos, para tudo. É verdade! Quando não é um novo ciclo de cu, é um novo ciclo de calças. Quando não é um par de calças, é uma órbita de calções. Há sempre ciclos, dentro de ciclos, a acontecer. E alguns até são dos bons!, quero dizer, daqueles que são intrinsecamente bons, além de serem – como todos, porque todos o são – sempre bons para alguma coisa.
E eu ando a testemunhar, legendar, relembrar, e às vezes – a esquecer – isto tudo há trinta anos, na minha vida e na vida de clientes e alunos, centenas e milhares do longo de décadas, quero dizer:
já levo mais anos de vida com a consciência dos planetas, dos ciclos, das energias e dos trânsitos do que sem. O que não quer dizer que essa consciência, ou conhecimento, sempre me tenham servido de muito, na realidade, ou facilitado a vida – às vezes angustia-me saber o que sei, ou pelo menos: acreditar no que acredito, ou acreditar no que penso, ou acreditar naquilo que acredito, imaginando que aquilo em que acredito é real.
Às vezes, penso no quão deformado ficou o meu pensamento – e ao mesmo tempo, no quanto se libertou.
(creio que, como a maior parte das pessoas, quando levo o processo de pensamento sobre qualquer assunto suficientemente longe, acabo sempre por esbarrar com o paradoxo inevitável e com o incognoscível; é aí que encolho os ombros e procuro alguma coisa de útil ou consequente para fazer – útil, consequente e o menos irrelevante possível; porque – depois de me pôr realmente a pensar – tudo me parece irrelevante e inconsequente, e a pessoa precisa de maneiras de se normalizar, como quem se acalma a si próprio de um ataque de pânico. Calma, sê normal: é só não te pores e pensar. Isto faz-te mal, leva-te a lugares que deves evitar:
deve ser por isso que me coíbo tantas vezes de pensar, de pensar a sério; e, de igual forma, também observo as pessoas a evitar fazerem-no.
… É difícil, uma pessoa pensar, real e dedicadamente nas coisas, sem esbarrar na absurda tragicomédia da vida
– mais vale fazer coisas que nos pareçam úteis, consequentes, e relevantes, quero dizer, relativamente úteis e relevantes; porque no grande esquema das coisas,
o que é útil?, realmente?,
o que é consequente?, realmente?,
o que é relevante, quero dizer,
realmente relevante?
Criar um filho.
Ok.
Entregar Amor e partilhar humanidade.
Hum, hum.
Estender uma mão, oferecer um olhar, tirar alguém da merda,
pôr alguém na merda, com confiança no processo e nos eventos e com espírito de caridade cristã, quando for esse o caso;
deixar o mundo um nadinha menos apertado à nossa passagem,
– sim sim –
deixar um sorriso onde encontráramos uma lágrima,
um respirar de alívio onde o diafragma antes não descontraía,
– pode ser –
aproveitar as efemérides, as conjunções, os ingressos e as outras punhetas como pretexto de uma vida mais saudável, mais alegre, mais vibrante, mais autêntica, mais vida
– concordo –
– uma vida que nos, não – que me – permita criar um filho; neste caso, uma filha
– também eu –
partilhar Amor
rir muito – apesar d’isso não ser muito masculino, há que resguardar a sua frame –
criar momentos kodak para a antecâmara do coração
a Vida, afinal, é a arte de criar boas memórias
de modo que eu,
raposa velha que se anda a enganar a si própria há trinta anos jogando pó de astrologia para os seus próprios olhos e ladaínhas encantatórias para não ficar a ouvir simplesmente o silêncio
– há sempre uma flauta qualquer a trautear música de feira –
aproveito cada vez mais a velhice
(deve ser o cansaço acumulado dos anos, já não tenho assim tanta energia nem vontade de andar a rabiar a Vida)
aproveito cada vez mais os momentos, os pretextos, e os trânsitos importantes
para fazer upgrades ainda que insignificantes (isso é peanurs, como diria o Jorge Jesus)
na minha experiência de vida
por mais Vida
não sei se mais tempo, mas seguramente mais Vida no mesmo tempo
mais Qualidade no viver
um Presente mais amplo e confortável no qual me deixar estar e cair, momento a momento,
porque – deve ser da idade –
cada vez me apetece menos mover, e no entanto
mais me apetece Vibrar
e por isso
quis aproveitar esta conjunção/cazimi de Marte a 25º de Escorpião, em trígono a Neptuno a 25º de Peixes,
como mais um momento, e um pretexto, de mais um safanão
de mais um desconforto consciente, um abanão
– isto de me desafiar novamente, pretexto diferente mas o mindset o de sempre, agora é que é, como quem desfia e desafia uvas passas na passagem do ano, promessas, promessas, no dia 3 de janeiro é que se vê logo quem é que é Fixo, quem é que é Cardeal, quem é que é Mutável
(os Fixos são os que chegam com as promessas ao dia 3 ;-))
é como abrir uma guerra simultânea em várias frentes,
nenhuma delas propriamente nova mas desta vez
(desta vez, desta vez)
há tanta Fixidez e Fé neste processo em particular
que desta vez é que é
desta vez é que vai ser
tenho tantas frentes nas quais lutar que ainda bem que escolhi bem o momento, o dia, as energias, e o pretexto:
tenho pela frente 419 dias d’Diário e vou aproveitá-los a todos;
mesmo que não transcreva nada (para aqui, para o Patreon), vou escrever no meu caderno todos os dias até 7 de Janeiro de 2025, nem que seja “hoje não escrevo”.
E se não chegar a escrever, vou pensar, ao acordar, como costumo e preciso fazer, de forma a não poder passar um dia sem poder dizer “hoje não pensei”;
na verdade disponho-me justamente ao inverso:
a pensar cada vez mais, mais dedicadamente, afincadamente, regularmente, religiosamente, sobre o que ando e escolho fazer com o meu tempo e com a minha vida.
O que dou por mim a fazer – realmente – depois de decidir que vou cortar a nicotina, o açúcar, a dopamina barata, o vício do telemóvel, ou o hábito de falar quando não tenho nada de valor a acrescentar, a tentação de comer calorias vazias, a tentação de me preocupar com o que não depende de mim, a megalomania de querer conhecer antecipadamente os planos de deus para mim:
Desafiar-me e confrontar-me.
E documentar o que se me vai passando dentro, acontecendo à volta, e o que dou por mim a dizer e a pensar para enganar a mim mesmo quando a verdade queima demais, e a Verdade sempre queima:
deve ser por isso que um dos meus símbolos favoritos para o “bom” Escorpião é a Fénix, que se imola e renasce das próprias cinzas:
este será o diário da minha meditação sobre as minhas mortes conscientes e auto-dirigidas, deliberadas, eleitas, e escolhidas –
é por isso que às primeiras etapas, ou à primeira parte, vou chamar “A Arte da Renúncia”.
Vou partilhando aqui alguns detalhes ou projectos pessoais – experiências – nos quais esteja a trabalhar.
Por exemplo,
comecei hoje um detox digital, sem telemóvel – apenas para o essencial, que é ver se tenho mensagens, e em particular da minha filha. Primeiro faço um dia, depois uma semana, depois um mês de detox digital e da dopamina que ele trafica. Hoje foi o primeiro dia. Olhei para ele – para o telemóvel – em duas ocasiões, uns 3 minutos no total, e foi porque recebi fotografias dela. Pela maneira como estava equipada, parecia estar a preparar-se para algum tipo de desporto radical. Que interessante, o paralelismo. Uns preparam-se para escrever, os outros para fazer bungee-jumping. É tudo o mesmo arquétipo 😉
Comecei hoje as ampolas para limpeza do fígado e dos rins, mas não comecei o sumo de aipo. Ainda.
Fui treinar, como habitualmente.
Continuo a lidar com a privação da nicotina, principalmente com a parte mental do vício, um destes dias hei-de escrever sobre isso. Por hoje respiro, admito a mim próprio o quanto me apetece fumar um cigarro, bebo água, e de vez em quando debato-me entre o desejo e a Vontade, como de resto,
planeio, fantasio, imagino, e creio vir a testemunhar ao longo destes próximos 419 dias.
Escorpião é a luta entre o desejo e a Vontade, ou entre o eu “inferior” e o eu “superior”. É por isso que quando a coisa corre bem e se dá a vitória do superior se declara: “guerreiro sou, e da batalha emerjo triunfante”.
E quando a coisa corre mal e é o eu inferior que ganha:, floresce maya e reina a desilusão.
A não ser que alguém – eu, deus – estejamos no comando. E que alguém testemunhe o que está a ter lugar, momento a momento, na arena onde decorre a batalha.
É precisamente essa a ideia, e a razão, de ter(mos) começado este Diário. Entre mim e Deus, é uma espécie de parceria comercial mas sem fins lucrativos: eu sei como escrever, e Ele dá-me o que.
E ainda me dá vontade, ou abertura, a vir aqui ao Patreon partilhar umas linhas excrescentes das minhas deambulações por mim próprio, afinal:
se todos somos universos, por onde haveremos nós de deambular quando decidimos abandonar as nossas casas antigas e os nossos antigos lugares de conforto?, a não ser
por nós próprios
universos:
uno, nuno,
e versos *
estrofes. Planetas. Punhetas.
Ai se eu acabo este diário, diz o Cardeal Mutável em mim,
até julgo que é mentira
– are we there, yet? – pergunta o burro em mim e a parte sábia diz
– chill, bitch, que eu ainda agora comecei contigo *


