e por falar em ondas

Olha o que se me deu à costa.

Mesmo há pouco, assim como quem legenda e ilustra a Vida que levamos e nos leva,

Nas suas correntes e marés,

Aleatórias aparentemente e só na superfície.

… E como hoje tenho um dia Vénus/Júpiter e não há tal coisa como prazer demais,

estou num buffet

– all you can eat. Juras?! 😂 –

a ter o meu género de perfect day;

depois de ter treinado,

entre lidas domésticas mas ainda não domesticadas,

depois se ter comprado livros que me interessam,

sentado, silencioso por fora e quase por dentro também,

a escrever, a criar, e durante todo o processo – a observar.

Anoto ideias, tarefas, projectos, afazeres,

reparo no que se passa e nas pessoas (é mais energias) à minha volta,

e dentro de mim, a desfilarem (aí é que é mais pessoas),

agradeço cada instante de solitude abençoada

enquanto não chega o momento de outra coisa

uma onda

ou o comboio

ou a hora da aula das 7pm

ou a hora de trocar as pedrinhas das gatas enquanto não chega

o dentista o reino o treino o galinheiro o fiscal das finanças ou da alfândega

enquanto não chega outra coisa enquanto não chega

o fim do mundo, diz-me o empregado que até no pólo norte já começaram a nascer flores e no Brasil, vendavais

– ele é brasileiro, mas também fala guerra ucraniana e palestina, entre maminha e carne de porco, salsicha, fumeiro, quer couve, mineira?, –

enquanto não chega a próxima onda, a próxima maré estou aqui, profundamente feliz por poder ouvir a minha própria esquizofrenia e observar a dos outros, que não creio – mesmo -, nem observo, nem constato que escutem, atentem, ou observem mas isto

é o meu próprio julgamento o meu próprio transe a minha própria porção de salsicha a minha própria porção de banana

frita

enquanto um silêncio tão maior que o meu próprio ruído observa

a agenda o papel a caneta o ecrã o feijão com arroz a Ucrânia na versão oficial televisiva os projectos os horários as ideias com o mesmo interesse, ou fastio, com que a caneta toma nota no papel de coisas que se nunca vierem a ser feitas não farão diferença nenhuma no grande esquema das coisas e eu é que tenho a mania de as fazer grandes, à escala da minha ignorância, e eu me recordo a mim próprio de mastigar bem

à conta do siso que me falta enquanto me recordo que podia ser pior,

podia ser eu a Ucrânia ou a Palestina desta vez,

podia ser frango ou maminha eu hoje no espeto,

podia não estar no papel de segurar na caneta, escrever e observar

e ra eparar nas coincidências de que me socorro para recordar – ou convencer – a mim próprio, por muito que cada momento seja prazeroso,

que há nisto sentido, que abaixo da espuma há oceano Vida eterna e sentido, e criaturas tão ou mais vivas, animadas e capazes que eu,

assim como peixes – que se forem dourados, têm um attention span de 9 segundos quando os humanos, concluiu um estudo da Microsoft acho eu que já não me lembro bem, têm 8. Segundos. De atenção.

Onde é que eu ia?

Não ia a lado nenhum, estou aqui sentado a comer all I can eat e a perceber all I can não levar tão a sério

Tinha ideia, e memória, de adorar passar os meus dias assim, em voo livre subaquático e a ir fazendo o que gosto, sem pessoas nem interrupções – a não ser à volta, mas isso, é alucínio

Carne de porco, treino e maminha – e às vezes, à laia de legenda da impermanência das marés, notícias na televisão,

Homens bons travestidos de empregados brasileiros,

anotações irrelevantes na agenda e às vezes

um blink de Deus

e um livrinho *

O treino foi bom, obrigado, One big fuck#ng meal a day, just for today

Só por hoje

Kafka à beira-mar

Máfia em Israel

Maria no altar

Só por hoje

Mais carne no espeto, ondas a passar,

e suspeito, é evidente,

mais banana a fritar *