A ironia da Vida
é o Sol poder ter-se libertado, e estar a emergir, da quadratura a Neptuno dos últimos dois dias
– cheia de confusão, desapontamentos, ironias e dúvidas, desencantamentos e sonhos estilhaçados, ideias turvas, e nuvens, enfim –
com uma nova clareza e quem sabe até,
um senso renovado de missão,
de confiança,
entrega
ou algo assim, próprio da vida do Espírito
Coração de Deus
Criança divina
Alegre Inocente Esperançosa Confiante como se nunca tivesse sido abusada nem precisasse de fazer cálculos e juízos,
Saudável, enfim,
ou pelo menos
renovada depois de um banho de Luz
Humildade
ou Amor
o que se calhar
vem tudo a dar ao mesmo,
porque Tudo
vem Dar
ao Mesmo.
Essa é a ironia da Vida.
A riqueza da Vida, essa, já é outra.
A Riqueza é o Sol poder estar a emergir da turbulência que atravessou,
do aperto, da desvitalização, da desmoralização,
com uma data de novos “e se..?“‘s
“e se…?“
“E se estivesse tudo certo?“
“E se eu começasse a minha vida de novo, com o que é que ela se pareceria?“
“E se fosse eu a comandar a minha vida, e não a minha cabeça – nem os meus fantasmas – como é que seria?“
“E se afinal não for eu a comandar a minha vida, mas Deus?“
“E se afinal Deus é que sabe, não eu, e eu tenho andado equivocado, no medo e no comando, equivocamente, este tempo todo, a pensar que controlo,
a pensar que sei,
a pensar que há certo e errado,
justo e injusto,
a pensar, a pensar
em vez de Compreender e Amar?”
“E se afinal
eu não tenho de me preocupar com porra nenhuma
e posso deslizar e confiar na nuvem de não-saber
e se afinal
posso relaxar no que sou e confiar no processo
relaxar no que sou e confiar no processo
e se afinal
Deus é que sabe e isto está tudo certo, eu só tenho de trabalhar com o que Deus me traz, momento a momento, lembrando-me eu
– e se eu me lembrasse disto, que diferença faria! –
lembrando-me eu que só tenho de trabalhar com o que vem, e me chega,
que o que me chega é o justo, o certo, e o necessário, é o correcto,
é benção divina,
e que eu só tenho de trabalhar com isso, recordando
que trabalhar é Amar
e pouco mais do que isso?“
“E se
eu não tenho que me preocupar com nada a não ser aceitar o que me vem,
e lidar com o que me impede de o fazer, reconhecendo
em cada situação e pessoa que me chega a lição
e no contexto,
a sala de aula
e me fosse dispensando de um exame final
de cada vez que digo sim
às provas de aferição
se sou capaz de viver assim,
assim-assim,
ou ‘inda não“
?
“E se eu me deixasse moldar, ampliar e aprender – ganhar espaço e Amor
a cada Sim que digo
ao que me apetece, por instinto,
dizer não?“
“E se crescer significasse
trazer cada vez mais Mundo para dentro
e com isso iluminar
tudo o que trago em mim
e não adentro?“
A ironia e a riqueza da Vida, afinal,
é que a Vida é uma rica ironia
e não custa pensar
que tudo o que me parece mal
só existe por um dia,
até ao dia em que exerço o músculo do Amor
em vez do martelo
de um juízo final *


