Passa a pessoa a vida a querer ser, tornar-se, a identificar-se com uma cena qualquer,
a querer ser o preferido do pai, a ter o amor da mãe, a certeza da sua protecção incondicional e do seu colo,
e depois vem Saturno, diz “não!” às tuas expectativas ou fantasias; a cena falha, o ideal cai,
o projecto aborta, o sonho acorda,
és rejeitado, abandonado, rejeitado, cais em desgraça,
até a mãe te falha; e o pai, que te critica e rejeita:
falam mal de ti – na tua cara, desejavelmente – falam, não: fala Saturno, usando a boca dos outros;
a vida falha (a vida, não: a irrealidade)
– despedem-te,
desiludes-te (despedes tu!),
descobres que afinal o ideal não é assim tão fixe,
que não há coisas perfeitas – muito menos tu,
que o modelo afinal também é imperfeito,
que dificilmente alguma coisa na tua vida trata apenas de Ti,
que há tanta coisa que te ultrapassa e tão pouco que tenha a ver contigo só;
que a diva afinal também caga,
que a Vida é curta e condenada às vicissitudes,
que estamos perfeita e imperfeitamente condenados ao desencontro entre o ideal e o possível,
que não há como levar demasiado a sério as nossas pretensões durante demasiado tempo,
que por muito que te esforces nunca tens a aclamação com que fantasiavas,
que por muito que sejas perfeito haverá sempre quem te julgue
(a começar pela tua própria consciência, tantas vezes, inadmissível – mas nem por isso)
que por muito que sejas boa pessoa
também te acontecem merdas.
É uma das maneiras preferidas de Saturno de nos manter acordados,
despertos, atentos,
sensíveis ao que a Vida É
mais além das nossas ideias delirantes sobre ela *

