Júpiter em Leão oposto a Plutão em Aquário: 1789 e 2026

Quando os palácios enfrentam as multidões

Na manhã de 14 de julho de 1789, quando a população de Paris avançou sobre a Bastilha, Júpiter encontrava-se em Leão e aproximava-se de uma oposição a Plutão em Aquário.

A oposição ainda não era exacta.

Júpiter estava perto dos 7º graus de Leão; Plutão encontrava-se perto dos 19º graus de Aquário. O aspecto aperfeiçoar-se-ia algumas semanas depois, a 2 de setembro. Mas a tensão já estava instalada. O acontecimento que viria a tornar-se o grande símbolo inaugural da Revolução Francesa ocorreu, portanto, durante a formação de uma oposição entre os mesmos planetas e nos mesmos signos em que agora voltamos a encontrá-los.

Em julho de 2026, 237 anos depois, Júpiter regressa a Leão e volta a colocar-se diante de Plutão em Aquário.

Não estamos perante uma simples oposição entre dois planetas.

Estamos perante o regresso de uma imagem arquetípica: o confronto entre o palácio e a praça, entre a autoridade central e o poder coletivo, entre aqueles que ocupam o palco e aqueles que exigem ser reconhecidos como participantes da História.

Naturalmente, a astrologia não nos autoriza a anunciar uma repetição literal de 1789. A História não se repete como uma peça representada com os mesmos actores, os mesmos cenários e o mesmo desfecho. Mas certos conflitos fundamentais, por serem arquetípicos, regressam.

Mudam as instituições, os instrumentos e as palavras de ordem; permanece a tensão arquetípica que procura uma nova forma de se manifestar.

E é essa tensão que importa compreender.

 

O rei e a multidão

Júpiter amplifica tudo aquilo em que toca. Em Leão, amplifica a necessidade de expressão, reconhecimento, liderança, grandeza e soberania. Pode representar o governante, o herói, o soberano, a celebridade, o líder carismático, mas também a fé no indivíduo excepcional: aquele que acredita ter recebido o direito ou a missão de conduzir os outros.

Na sua expressão mais nobre, Júpiter em Leão fala de liderança generosa, coragem moral, criatividade, magnanimidade e capacidade de inspirar. É o rei que não governa apenas para conservar o trono, mas para proteger a vitalidade do reino. É a autoridade que compreende que o poder não é um privilégio pessoal, mas uma responsabilidade perante a comunidade.

Na sua sombra, porém, pode tornar-se grandiosidade, teatralidade, culto da personalidade, inflação do ego e convicção de que algumas vidas possuem mais importância do que outras. O soberano deixa então de representar o centro simbólico da comunidade e passa a confundir a comunidade consigo próprio.

Plutão em Aquário coloca precisamente essa concentração do poder sob pressão.

Aquário relaciona-se com a sociedade, os grupos, as redes, as ideias colectivas e as visões de futuro. Plutão, ao atravessá-lo, revela as forças subterrâneas que operam no interior dessas estruturas. Expõe os mecanismos invisíveis de controlo, intensifica as lutas ideológicas e transforma profundamente a relação entre o indivíduo e o colectivo.

Plutão em Aquário pode representar a emergência de movimentos emancipadores, mas também o poder esmagador das massas. Pode libertar o indivíduo de hierarquias antigas e, simultaneamente, submetê-lo a novas formas de uniformização. Pode desmantelar os privilégios de uma elite e criar outras elites, mais invisíveis, mais tecnológicas e talvez ainda mais difíceis de responsabilizar.

A oposição obriga-nos, portanto, a perguntar: quem detém verdadeiramente o poder? Quem decide o futuro? Quem fala em nome do povo? E que novas tiranias podem nascer enquanto destruímos as antigas?

 

A Bastilha não era apenas uma prisão

Em 1789, a Bastilha já não albergava um grande número de prisioneiros. A sua importância prática era inferior à sua importância simbólica: representava a autoridade arbitrária da monarquia, o poder de deter, silenciar e fazer desaparecer alguém por decisão do soberano.

Uma espécie de “censura” virtual, proibição de acesso on-line, bloqueio na rede social: cancelamento, à moda antiga.

Por isso, a tomada da Bastilha foi muito mais do que a ocupação de um edifício. Foi a invasão de um símbolo.

O povo entrou fisicamente nessa arquitectura do medo e declarou que ela já não era inviolável. Aquilo que parecia sólido, permanente e protegido pela História podia, afinal, ser atravessado. O poder dependia da crença colectiva na sua intocabilidade — e essa crença estava a desaparecer.

É uma das grandes mensagens de Plutão: as estruturas começam a morrer muito antes de caírem. Primeiro perdem a vitalidade interior. Depois perdem a legitimidade. Finalmente, perdem o poder de convencer as pessoas de que são eternas.

Quando a Bastilha caiu, não caiu apenas uma fortaleza. Caiu uma representação da ordem antiga.

Tal como a velha ordem que está em queda acelerada, mas nem por isso evidente para as massas, nos tempos actuais.

Também nós vivemos entre instituições que conservam a aparência de solidez enquanto perdem, silenciosamente, a legitimidade. Governos, partidos, meios de comunicação, sistemas económicos, autoridades científicas, tecnológicas, religiosas e culturais enfrentam uma crise crescente de confiança. Muitas pessoas já não acreditam que aqueles que falam em seu nome as representem verdadeiramente.

A questão é saber quais são as Bastilhas do nosso tempo.

Que instituições continuamos a considerar inexpugnáveis apenas porque nos habituámos à sua existência? Que formas de autoridade permanecem de pé depois de terem perdido a alma? Que sistemas exigem obediência sem conseguirem oferecer significado, justiça ou futuro?

Pensa na Organização Mundial de Saúde. Pensa na NATO. Pensa na UE. Na ONU. Pensa nos governos ocidentais que deixaram de servir as suas populações e povos.

Continua a pensar.

Estás no trilho certo.

 

Da imprensa revolucionária às redes digitais

A Revolução Francesa não foi feita apenas nas ruas. Foi preparada por ideias, livros, panfletos, jornais, cafés e sociedades políticas. Antes de se tornar multidão, a revolução tornou-se conversa. Antes de derrubar muros de pedra, atravessou os muros da imaginação.

Circulou pelos “posts” possíveis da altura.

O poder deixou de circular apenas de cima para baixo. As ideias começaram a movimentar-se horizontalmente, entre cidadãos.

Aqui encontramos uma correspondência extraordinária com Aquário. Em 1789, a circulação acelerada de textos e ideias ajudou a construir uma nova consciência coletiva. Em 2026, essa circulação acontece através de redes digitais capazes de ligar milhões de pessoas em poucos segundos.

É por isso que actualmente se tornou uma obsessão controlar a internet e o acesso a ela.

Mas a semelhança contém também uma diferença decisiva. E esta é muito, muito importante.

As redes actuais não são apenas meios através dos quais comunicamos. São também sistemas que nos observam, estudam, condicionam, e direccionam.

Aquilo que parece uma praça pública pertence frequentemente a empresas privadas. Aquilo que parece uma conversa espontânea pode ser amplificado, reduzido ou desviado por algoritmos que ninguém elegeu. Aqueles que parecem comentários de outros como nós podem ser simplesmente “bots” ou pessoas pagas para os escreverem.

Plutão em Aquário não fala apenas do poder do povo ligado em rede. Fala também do poder sobre o povo exercido através da rede. E este é muito mais insidioso, por ser menos “leonino”, personificado, encarnado, exposto, luminoso, assumido – e por estar disseminado em partículas ínfimas – numa espécie de “microfísica do poder”, como lhe chamou o Michel Foucault.

Em 1789, o poder parecia estar concentrado no rei, na aristocracia, na Igreja e nas instituições do Antigo Regime. A Bastilha era uma representação monumental desse poder. Hoje, contudo, o poder tornou-se muito mais disperso, invisível, tecnológico e interiorizado.

E isto é tão importante de reconhecer:

a Bastilha de 1789 era uma arquitectura visível do poder. Podia ser localizada, cercada e tomada.

As Bastilhas contemporâneas são mais difíceis de reconhecer porque o poder já não vive apenas nos palácios, nos governos ou nas prisões. Como percebeu – e escreveu – Foucault, existe uma verdadeira microfísica do poder: uma rede capilar de normas, discursos, vigilâncias e mecanismos disciplinares que atravessa as instituições, as relações e o próprio indivíduo. O poder mais eficaz talvez já não seja aquele que nos proíbe alguma coisa, mas aquele que organiza silenciosamente aquilo que vemos, desejamos, pensamos e consideramos possível. A prisão deixou de precisar de muros quando aprendemos a transportar o vigilante dentro de nós.

A nova Bastilha pode não ter muralhas. Pode caber no bolso. Pode conhecer os nossos desejos, os nossos medos, os nossos movimentos e as nossas vulnerabilidades. Pode oferecer-nos conveniência enquanto recolhe obediência; dar-nos expressão enquanto organiza invisivelmente aquilo que conseguimos ver.

Pode oferecer-nos anúncios relacionados às conversas que acabámos de ter – como?

Xi Jiping: I love you!

Se em 1789 se contestava o direito divino dos reis, no nosso tempo teremos de interrogar o direito quase divino dos algoritmos: quem os cria, que interesses servem e que conceção de humanidade transportam consigo?

 

A crise dos privilégios

A Revolução Francesa nasceu também de uma profunda desigualdade económica, de uma crise financeira do Estado, do aumento do preço dos alimentos e de um sistema no qual os encargos não eram distribuídos de forma justa. Enquanto grande parte da população suportava o peso da escassez, as classes privilegiadas conservavam direitos, isenções e formas de proteção inacessíveis à maioria.

Na altura não era petróleo, fertilizantes, micro-chips, minerais, e todos os outros recursos ameaçados, quer na disponibilidade, quer no custo, pelos conflitos actuais. Na altura era mais simples, mais directo, mais imediato: era o pão para comer.

(para nós também, mas só quando a crise energética e de fertilizantes se reflectir na crise agrícola na colheita seguinte é que vamos percebê-lo, e ainda estamos a uns meses disso acontecer):

quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão.

E o mexilhão é o povo: é sempre o povo.

E povo é Aquário.

Júpiter em Leão pode simbolizar a exibição do privilégio: o luxo que precisa de ser visto, o poder que se legitima através do espectáculo, a riqueza transformada em prova de superioridade.

Plutão em Aquário responde através da pressão colectiva acumulada.

Também hoje assistimos à concentração extrema de riqueza e influência, ao enfraquecimento das classes médias e à sensação crescente de que as regras não se aplicam igualmente a todos. Enquanto milhões de pessoas receiam perder habitação, trabalho, segurança ou dignidade, uma pequena elite tecnológica e financeira acumula um poder que ultrapassa, em alguns casos, o de muitos Estados.

O perigo surge quando a distância entre o palco e a plateia se torna insustentável. Quando aqueles que governam, decidem ou enriquecem deixam de compreender a experiência concreta daqueles sobre quem recaem as consequências das suas decisões.

Toda a elite corre o risco de confundir protecção temporária com invulnerabilidade histórica.

Foi um dos erros do Antigo Regime. Pode voltar a ser o erro dos poderes actuais.

Pode, não: é.

 

A batalha pela soberania

A oposição entre Leão e Aquário não é apenas política. É também uma tensão entre duas formas de soberania.

Leão afirma: eu sou, eu crio, eu decido, eu assumo a minha vida.

Aquário responde: ninguém existe sozinho; todos fazemos parte de sistemas, comunidades e futuros partilhados.

Precisamos das duas verdades.

Sem Leão, o colectivo pode esmagar a singularidade. A pessoa torna-se um número, um perfil, um dado, um membro substituível de uma massa. Sem Aquário, o indivíduo pode transformar a liberdade em privilégio e a soberania em narcisismo, esquecendo-se de que todas as escolhas pessoais têm consequências colectivas.

A verdadeira questão desta oposição não é escolher entre o indivíduo e a comunidade. É descobrir como podemos construir comunidades que protejam a singularidade e indivíduos capazes de assumir responsabilidade pelo mundo comum.

Porque existe uma sombra em ambos os lados.

Júpiter em Leão pode produzir salvadores, demagogos e líderes que prometem restaurar uma grandeza perdida. Plutão em Aquário pode produzir multidões intoxicadas pela certeza moral, movimentos que desumanizam os seus adversários e sistemas colectivos que sacrificam a liberdade em nome de um futuro ideal.

Pensa no livro “1984”, ou no “Admirável Mundo Novo”. Boas e obrigatórias leituras, para os tempos que correm, assim como outro no qual tenho insistido desde os anos da “plandemia”: “O Medo da Liberdade”, do Erich Fromm.

Mas adiante.

Um rei pode tornar-se tirano. Mas uma multidão também.

Uma revolução pode libertar. Mas pode igualmente reproduzir, com novos nomes e novos símbolos, aquilo que jurou destruir.

A História posterior a 1789 recorda-nos precisamente isso. A queda de uma prisão não aboliu a violência política. A destruição da ordem antiga não impediu o Terror. A deposição do rei não eliminou a concentração do poder. A revolução que proclamou liberdade, igualdade e fraternidade acabou também por conhecer tribunais sumários, perseguições, execuções e, mais tarde, um imperador.

Plutão ensina-nos que não basta substituir aqueles que ocupam o poder. É necessário transformar a nossa própria relação com o poder.

Um colectivo, lá por ser colectivo, não deixa de ser potencialmente uma forma de tirania, e não de democracia.

O autocrata leonino, pelo menos, é mais honesto. Mais exposto. Mais-o-que-é. Não engana ninguém.

O poder disseminado e invisível, sim.

 

Que futuro estamos a preparar?

A oposição Júpiter–Plutão pode intensificar conflitos de poder, crises de legitimidade, disputas ideológicas e confrontos entre lideranças carismáticas e forças colectivas. Pode ampliar tanto a vontade de emancipação como a tentação do extremismo.

Mas um símbolo astrológico não é uma sentença. É uma tensão que pede consciência.

O regresso desta oposição no eixo Leão–Aquário, em Julho de 2026, convida-nos a observar onde estamos a entregar a nossa soberania, onde estamos a seguir multidões sem pensar, a demitir-nos de assumir protagonismo ou responsabilidade pessoal e colectiva, e onde confundimos visibilidade com autoridade, popularidade com verdade, tecnologia com progresso ou indignação com consciência.

Onde é que os “líderes” abusam do poder, e se servem dele, em vez de servir o colectivo e a comunidade.

As maneiras pelas quais as novas “tecnologias” e formas de organização, e poder, nos manipulam, enganam, distraem – e dominam.

A importância de uma Revolução Colectiva (Aquário) a começar na Soberania individual (Leão). A importância da mobilização colectiva, da Comunidade, e da criação (que será mais ou menos espontânea, ou inevitável, em nome e para salvaguarda da “sobrevivência” da consciência humana, e como via de saída de um pesadelo pan-tecnológico e distópico que ameaça dominar-nos a todos) de alternativas à sobrevivência da consciência humana “fora” destes sistemas-pesadelo e todo-engolfantes.

Comunidades informais, por exemplo, feitas de “hereges” e “neuro-divergentes” e “opositores do sistema” e “conspiracionistas” e outros daqueles tantos, e cada vez mais, que vão acordando para a vida e que se recusam a ser chipados, identificados digitalmente, a usar dinheiro digital com um plafond atribuído por alguém e dependente de “aprovação”, que se recusam a ser manipulados para optarem por automóveis eléctricos que podem ser controlados – e desligados – à distância por um algoritmo em nome de argumentos “científicos” ou teorias “verdes” convenientemente elaboradas como estratégias de manipulação, culpabilização, ou redenção e recompensa dos “bonzinhos” que vão “salvar o planeta”, aplaudir e apoiar a abertura das fronteiras ao “enriquecimento cultural” (mesmo que isso implique a destruição do tecido social e fazer rebentar as sociedades pelas costuras), ou então, que vão aceitar e engolir que o Sol, o colesterol, a masculinidade, o pensar pela própria cabeça são, todos, eles (e apenas como exemplos, poucos) coisas “más” que devemos, como colectivo, sancionar, diminuir, calar, silenciar, policiar, monitorar – e denegrir.

Se quisermos ser distópicos e levar adiante os cenários negros que potenciamente temos pela frente, claro; mas não é esse o fito deste texto.

O fito deste texto é só mesmo sublinhar os paralelos entre Julho de 2026 e a tomada da Bastilha – e as dinâmicas de poder, transformação, e “democracia” que a dança destes arquétipos encerra…

Talvez a pergunta decisiva destes tempos seja esta:

Como podemos derrubar as Bastilhas exteriores sem construir novas Bastilhas dentro de nós?

Como lutar contra a concentração do poder sem desejar secretamente concentrá-lo nas nossas próprias mãos? Como defender a liberdade sem desumanizar aqueles que discordam de nós? Como participar no colectivo sem perder a consciência individual? Como reconhecer a necessidade da liderança sem voltar a ajoelhar diante de falsos reis?

Em 1789, a multidão entrou na Bastilha.

Em 2026, talvez a Bastilha esteja disseminada por toda a parte: nas instituições, nas redes, nos sistemas de vigilância, nas dependências digitais, nas bolhas ideológicas e nos medos que nos levam a trocar liberdade por protecção.

Mas também pode existir dentro de nós: nas crenças que já não interrogamos, nas autoridades internas às quais continuamos a obedecer e nas prisões psicológicas que defendemos porque nos parecem familiares.

Júpiter em Leão pede-nos grandeza, coragem e soberania. Plutão em Aquário exige transformação coletiva, lucidez perante o poder e responsabilidade pelo futuro.

Entre o rei e a multidão, entre o indivíduo e o sistema, entre o palco e a praça pública, voltamos a encontrar-nos diante de uma escolha histórica.

Não se trata apenas de saber que ordem poderá cair.

Trata-se de saber que espécie de seres humanos estaremos preparados para ser quando os seus muros deixarem de nos proteger — ou de nos aprisionar.

 

(para ser continuado… não sei se por mim, mas pela História. Veremos ;-))

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