Moral da história

… a grande conclusão, a frase lapidar e final da longa conversa que tive ao almoço com a Maria Jasmim, a três dias de cumprir o seu sexto aniversário, sobre as razões todas para eu a considerar uma criança privilegiada por entre os milhões de crianças no mundo

– depois de ter elencado dúzia e meia de razões a demonstrar a quantidade e qualidade de privilégios que ela tem, comparando com tantas e tantas outras –

dei por mim a concluir assim:

“não faz mal, filha; os cegos não precisam de ver para serem vistos”.

E dei por mim próprio a pensar na profundidade e no alcance desta ideia:

os cegos não precisam de ver para serem vistos.

Os seres fechados não precisam de amar para serem amados.

Os surdos não precisam ouvir para serem ouvidos.

Os cegos não precisam ver para serem vistos.

Quem sabe ela, que decora tanta coisa, decore mais isto; e a semente venha a brotar um dia mais tarde:

quiçá ela o esqueça.

Mas eu não;

e nunca me cansarei das oportunidades contínuas que a Vida me dá para, a pretexto dos outros,

me recordar e reeducar a mim próprio *

– é disso, afinal, que se trata

Trazer uma Criança ao Mundo <3

Ou falar:

para que nos possamos ouvir,

à sabedoria relativa que transportamos dentro,

e ao desencontro entre o que pensamos e pensamos que sabemos, e como damos por nós

a Viver,

ou tentar *

… Ou como dizia o outro,

não faz mal:

não percebe agora,

percebe depois.

E se não perceber, não faz mal:

há-de continuar a ter lições

até aprender *