“Os Tempos Actuais” – palestra de 5 de Dezembro de 2018

Deixo-vos aqui, hoje, a transcrição da primeira parte da palestra que realizei no Instituto Macrobiótico de Portugal no dia 5 de Dezembro de 2018 sobre “Os Tempos Actuais”.

É um convite à reflexão, e também, 

uma espécie de “teaser” do que me estou a preparar para escrever acerca dos anos 2023 a 2026, caso alguém tenha interesse em conhecer e contactar com o meu pensamento e as minhas formas (e capacidade?) de “pré-ver”, através da Astrologia, como os movimentos planetários se reflectem sobre as nossas vidas e planetas:

o convite é que leias o que escrevi há cinco anos, MUITO ANTES dos desenvolvimentos dos anos mais recentes.

Deixa o teu feedback. Adoraria saber o que pensas do que foi dito nesta altura, principalmente, agora que tens como comparar com os anos que se seguiriam, e dos quais estamos, lentamente, a começar a emergir e a ganhar perspectiva.

Aqui fica, à tua consideração.

Com um agradecimento especial a quem tomou do seu tempo pessoal para transcrever esta gravação, em Serviço Público a toda a nossa comunidade. Obrigado *

Os Tempos Atuais – conferência de nUno Michaels no IMP

5 de dezembro de 2018

1ª Parte

“Quando falamos de “tempos atuais”, a primeira coisa que temos que clarificar é a nossa escala: a que escala queremos ver a coisa?

Porque “tempos atuais”: o que é? É este início de dezembro de 2018? É o próximo ano, e este?

Ou é a grande mudança civilizacional que está a ter lugar?

Ou é o próximo ciclo de 35 anos de Saturno-Plutão, a partir de 2020?

Ou é a entrada de Plutão em Aquário, que nos vai praticamente fundir – humano e tecnologia?

Para onde é que queremos olhar, e em que é que pensamos, quando pensamos em “tempos atuais”?

Daqui a minha primeira pergunta, que é: A que escala e a que dimensão… – o termo técnico da psicologia é “perspectiva temporal de futuro”. Qual é a perspetiva temporal de futuro com que cada um de nós vive?

Se a nossa perspectiva temporal de futuro é desde o Big Bang até ao colapso dos tempos, é uma certa escala: e a minha consciência é cósmica.

Se a minha perspectiva temporal de futuro é desde que nasci até que morro, é outra escala.

Se a minha perspetiva temporal de futuro é o que me vai acontecer para a semana, também é outra escala.

Então vamos clarificar algumas coisas.

Quando nos referimos aos “tempos actuais”, eu vou falar essencialmente da transição em que estamos, e em que temos estado desde a última década. E eu digo desde a última década porque há exactamente 10 anos, Plutão entrou em Capricórnio e não sairá de lá senão em 2024 ou 2025.

O sistema solar, para um astrólogo, é o mesmo que para um não astrólogo um relógio, ou um calendário, são. O que nós temos na parede como calendário, com 1 Janeiro, 28 de fevereiro, 7 de março ou 25 de Abril; ou quando olhamos para o relógio e pensamos são sete e meia da tarde, daqui por uma hora vou estar a comer qualquer coisa…

Os astrólogos olham para o sistema solar como uma espécie de calendário perpétuo coletivo, onde cada vida individual tem a sua função, o seu lugar e o seu ritmo próprio. É o movimento dos planetas, especialmente dos planetas mais distantes do centro do sistema solar, ao longo do Zodíaco, e ao longo do tempo, que vão “marcando a hora” e a qualidade de cada tempo histórico.

Então vamos regredir o nosso “relógio” até ao ano de 2006. Aqui estávamos nós, com Plutão em Sagitário, ainda… Ainda a troika não tinha chegado a Portugal.

A propósito do signo de Sagitário, porque vamos falar dele daqui a pouco: Sagitário, como qualquer outro signo ou símbolo astrológico, representa uma qualidade energética determinada, específica, diferenciada entre o conjunto de diferentes qualidades energéticas de que toda a realidade se compõe e nasce, e de que cada “signo” representa um diferente aspecto, arquétipo, ou qualidade energética essencial que corresponde também, cada uma delas, a uma diferente fase do ano.

Os signos são símbolos, referem-se a diferentes fases e qualidades energéticas ao longo do ano. A Astrologia nasceu do estudo da ciclicidade: da observação e repetição de fases, dos ciclos, do ano, das estações, e dos dias.

E depois – ao longo do anos, dos séculos e das culturas e visões do mundo, projectando para aí abstrações, conceitos, filosofias e metafísicas.

Mas, na base, os signos do Zodíaco são, muito elementarmente, se é o início da primavera, se é o início do verão, o fim do outono, o fim do inverno, as cheias, as secas, se os dias  estão a aumentar ou a diminuir, etc.

Então quando falamos de Sagitário, falamos de um signo que, entre muitas coisas, fala de muito, de crescimento, de exagero, e daquilo que pode tender a ser demais, excessivo.

É claro que para termos um “demais” temos sempre que ter uma referência: para avaliar como demais, ou insuficiente, é sempre relativamente a qualquer coisa, a qualquer critério, norma ou referencial.

Mas podemos dizer que Sagitário representa o crescimento, a expansão, o que está mais elevado, o que é mais leve, o que é mais luminoso, o que amplia, o que cresce, o que protege, aquilo que nos promove, patrocina, beneficia, alivia, traz solução ou alívio, novas possibilidades, e protectores.

O que nos leva (ou está) mais longe, que nos obriga a deslocar, a distender, a estender, a ampliar, a abocanhar mais. A acreditar mais. A confiar mais. A arriscar demais: a sobre-estimar. O não respeitar perigos, limites, proporções, ou o bom-senso (ou a sensatez, ou a prudência, ou a cautela: mais uma vez, o delicado equilíbrio entre a expansão e o limite “justo”, adequado, proporcional, ou “correcto”).

No extremo, Sagitário é um signo de exagero, de otimismo exagerado, o que não dá bom resultado. O sagitariano acredita sempre que a relva lá à frente é mais verde, que mais valem dois pássaros a voar do que um na mão.

O signo que, de certa maneira, faz contraponto e contrapeso a Sagitário é Capricórnio.

Capricórnio é uma espécie de reação contra os excessos de Sagitário. Se Sagitário quer expandir e diz “mais”!, Capricórnio diz “menos! Calma! Não tens o suficiente para isso tudo… dinheiro, tempo, energia, vitalidade, saúde, conhecimento,…”

Estávamos então em 2006 e, dois anos depois, no dia 5 de dezembro de 2008, Plutão chegaria a Capricórnio.

E se nos lembrarmos do que estava a acontecer no mundo nessa altura, particularmente em Portugal, foi a partir daí que chegou a troika e a noção de que todas as economias têm que ganhar controlo sobre o que estão a fazer e o que está a acontecer. E que há países, como por exemplo a Grécia e Portugal, que têm evidentemente vivido acima das suas possibilidades.

Então, quando há uma mudança energética de Sagitário para Capricórnio, é a mesma coisa que ir para a festa na sexta-feira à noite e ter ressaca no sábado de manhã. Capricórnio é a ressaca, Sagitário é a festa.

Então, possivelmente podemos encontrar aqui um paralelismo quando em 2008, 2009, 2010 a palavra de ordem era “austeridade”. Plutão em Capricórnio. Não podemos mais viver acima das nossas possibilidades. Temos que conter, reduzir, prestar contas, simplificar as estruturas, eliminar as gorduras do Estado. Capricórnio representa a infraestrutura, o essencial, o esqueleto.

Capricórnio, no nosso hemisfério, simboliza o inverno, o que implica hibernar e reduzir ao máximo o desempenho energético. E aprender a viver melhor, a sobreviver temporariamente com muito poucos recursos.

Se pensarmos que um país como a Índia, que é um país que está muito associado com o signo e com o arquétipo de Capricórnio, na Índia temos várias expressões desta energia.

Na Índia nós temos, não só uma sociedade altamente estratificada, estratos dos quais as pessoas não podem sair. Por exemplo, se eu nasço na Índia como intocável, que é a classe social mais considerada mais baixa na economia, na cosmogonia hindú eram considerados a poeira nos pés de Brahman, são o lixo.

Na sociedade, qualquer ser que nasça nesta casta, nunca sairá dela. É incrível olhar para os olhos de uma criança de 11 anos ou 10 anos, um intocável, que trabalha num hotel a limpar as retretes dos turistas e nós sabermos que ele é intocável e eu saber que também ele sabe muito melhor que eu que nunca a vida dele vai mudar, que nunca vai passar a ser de outra classe social, nunca vai ter acesso a ser comerciante, ou ser um nobre de algum tipo, ou ser um homem com estatuto, nunca. Sempre, será a vida toda considerado poeira.

E haver esta cumplicidade silenciosa: eu respeito-te, eu admiro-te, mas tenho o coração partido quando penso na tua condição. Isto é o nosso olhar sobre ele, e o olhar dele sobre nós é um “está tudo bem”, isto é tudo brincadeira dos deuses, isto é tudo a vida de Jesus, não é para ser levado a sério. E está tudo bem. Agora comparemos isto com a mentalidade Kardashian do nosso mundo e apercebamo-nos do que é a grandeza da alma.

Queria falar como na índia ter os nossos filhos numa sociedade altamente estratificada com castas das quais não saímos. Isto é Capricórnio e, ao mesmo tempo, é um país de onde vieram os maiores mestres, Yogis. O yoga tem muito que ver com o domínio do corpo físico. É Capricórnio, e ao mesmo tempo com práticas ascéticas de purificação, como o jejum. Aliás o próprio Sidharta Gautama, o Buda histórico, andou atrás dos brâmanes da floresta durante oito anos até perceber que não é por aqui que encontraria o seu caminho. Não é pela modificação e pelo esforço, porque tudo o que é excesso não é um caminho. Não é o caminho do meio.

Pela ideia de casta, pela ideia de mestria, pela ideia de ressurreição, pela ideia de pobreza, quem já foi à Índia sabe falar do que estou a falar. A pobreza é avassaladora e nós tentamos salvar aquelas pessoas, se temos o coração no sítio, que temos. Se um português vai para a Índia, não descansa sem dar de comer ao máximo de crianças que consegue.

Ou então, quer ir embora, quer ir para o hotel de cinco estrelas e quer apanhar o avião que voe mais depressa para Lisboa porque não suporta a Índia. Não aguenta o cheiro, não aguenta as pessoas. Se tem o coração fechado: é a minha experiência na Índia. Se eu tenho a capacidade de me abrir, me deixar tocar por realidades que me são estranhas é uma experiência incrível. Porque nos convida a largar as caixas dentro das quais vivemos e temos a certeza de como é que a vida, o que é ser, o que é que liberdade, o que é dignidade, o que são direitos humanos, o que é a justiça, o que é que é correto. Na Índia tudo isso se estilhaça, de muitas maneiras.

Nós vamos para mergulhar no rio Ganges e dizem-nos cuidado, que é um rio muito poluído. Sim, mas não faz mal, eu vou mergulhar. Mas é muito poluído porque os resquícios dos corpos que ali são queimados, por exemplo em Varanasi onde as pessoas vão todas para morrer, porque se acredita que quem morre em Varanasi atinge a libertação. Não sofre mais.

Então tudo o que é leproso, velhinho, doente terminal vai em peregrinação a arrastar-se para a Varanasi para morrerem. É uma sobre-estimulação sensorial, com barulho e cheiro e com milhões e milhões de pessoas que não têm a nossa noção de espaço pessoal e estão sempre à nossa volta. E crianças mutiladas pelos próprios pais, para pedirem esmola e para serem mais encantadoras. A maneira de sobreviverem. Então vemos esta cidade, como Varanasi, com todos os restos e todos os corpos. Como é que a madeira e os corpos são queimados? Em piras.

Há um crematório tradicional de madeira pesada, constroem piras, põem-se lá os corpos e quando a madeira acaba de arder, o que fica, fica, e é empurrado para dentro do rio.

A madeira é calculada e pesada e atribuída em função do poder de compra da pessoa. Agora imaginem os indigentes e os desgraçados, que não chegam a ser queimados: quando muito, passam pelas brasas. Passam pelas brasas, porque atribuem-lhes três troncos de uma madeira asquerosa, aquilo arde e quando acaba de arder vai para dentro do rio, em decomposição.

O Governo aqui há uns anos teve uma boa ideia, porque largou no Ganges cem mil tartarugas, para comerem os corpos. E depois as pessoas comeram as tartarugas. Isto é outra realidade. É um mundo em si próprio. É uma realidade com regras próprias, que nos obriga a lidar com muitas restrições e limitações que para nós no ocidente, com direitos, livro de reclamações e tribunal europeu dos direitos do homem, não nos passa pela cabeça que no mundo se viva com tamanha dificuldade e com tamanha restrição.

E quem diz a Índia diz a Indonésia, onde as pessoas trabalham o mês inteiro para terem o suficiente para comerem arroz. E muitas vezes nem para a família toda chega.

Isto para dizer que a Índia é uma sociedade altamente capricorniana, de restrição, de dificuldade e de certa maneira muita gente neste contexto tem que aprender a sobreviver com muito pouco e com o essencial. Então, há-que relativizar as coisas. Nós, europeus sofisticados, o nosso drama é se temos dinheiro para o próximo modelo de iPhone.

Há muitas maneiras de viver a energia de Capricórnio, mas Capricórnio é em si mesma esta energia de restrição, de lidar com pouco e para tirarmos partido do pouco temos que nos focar nas prioridades e no que é essencial. Essencial vem de “essere”, que significa aquilo que é  relativo ao ser.

Então, temos aqui uma passagem de Sagitário para Capricórnio e com esta mudança civilizacional, que começou com a entrada de Plutão em Capricórnio. Começou o princípio do fim. O fim de um paradigma de Capricórnio inferior. Um paradigma baseado na exploração das relações de poder para que uma minoria dos seres humanos, que se vêem como separados de todos os outros, tenham sucesso e controlo sobre uma grande maioria.

Há uns anos, vieram à luz estatísticas que dizem que um por cento da população mundial detém cinquenta por cento dos recursos da riqueza mundial, um por cento da humanidade detém metade do planeta.

Isto possivelmente terá a ver com o ciclo anterior de 250 anos de Plutão e terá a ver com os últimos 250 anos que foram basicamente de desenvolvimento e de industrialização e de desenvolvimento de tecnologia, maquinaria e de indústria para produzir e para vender. E que precisam que as pessoas consumam para alimentar a indústria. E neste ponto ocorre-me o anúncio da televisão com um ratinho a correr na rodinha gera eletricidade para iluminar o pinheiro de Natal. O Natal das pessoas “normais” que fazem compras por compensação. O ratinho salva o Natal porque gera eletricidade para o pinheiro e vamos celebrar o Natal. No ratinho, eu vejo o cidadão e aquilo que temos como título social dos últimos anos: o que somos? Somos um consumidor.

Nos últimos 250 anos têm-se salientado o poema em que pensa o homem de marketing: vender, persuadir para bem da economia. A economia, para mim, baseia-se num delírio, umas das formas de esquizofrenia e de outras formas de psicose. O delírio é de que é possível um crescimento infinito num planeta limitado, com recursos limitados, com inteligência limitada e sem consciência cósmica por parte do homem. Aquilo que em economia se chama crescimento, em biologia chama-se cancro. Que, na natureza, é um crescimento desordenado e sem fim.

Temos sido uma sociedade cancerosa e o paradigma dominante de que consome, que é bom para ti e para a economia e trabalha num emprego que não te realiza, que te espreme a vitalidade, a alegria, que te consome e te coloca num paradigma de competição, que alimenta os teus medos de sobrevivência, porque tens que ser o melhor, tens que ter mais, tens que ter boas avaliações de desempenho, trocar de carro de dois em dois anos, ter que fazer, ter que viajar… Somos o ratinho a correr na roda, a nossa vida inteira.

Digo a vida inteira conscientemente, pois antes de nascermos já somos um projeto na mente dos nossos pais. O simples facto de os nossos pais engravidarem de nós, há um fenómeno de termos que viver a vida não vivida deles, a não ser que ganhemos consciência dos enormes enredos que estamos a viver, mas estamos demasiado ocupados a fazer coisas sem importância nenhuma, que se espremem da essência para manter a roda a rodar, a produzir eletricidade para alguém ter um bom Natal.

1% da humanidade tem um bom natal. Enquanto nós corremos sem propósito, sem consciência e sem noção, num mundo com um paradigma de competição e de comparação, de separação, de objetivos com o pior da mentalidade masculina e patriarcal: hierarquias, competição, luta, autoridade, quem é o dono, quem manda, quem fatura mais… Com prémios, como se alguém pudesse ter orgulho em ser o melhor empregado do mês, como acontece no McDonalds.

Se não te conheceres, se não olhares para dentro, não tens alternativa senão apanhar o barco que toda a gente apanha. Mas não estamos obrigados a isso. O que nos empurra para isso é a pressão para a conformidade, pensamos que 7,7 mil milhões de pessoas devem estar certas.

Desde pequeninos que vemos isso. Quando nasço, e nos primeiros anos de vida, funcionamos ao nível de génio, vivemos literalmente ligados à Fonte e percebemos tudo. Sabemos. É impossível mentir a um bebé, ou uma criança. A não ser a partir do momento em que as educamos e socializamos e ensinamos o que para nós é bonito.

Nascemos com um estado de lucidez, porque vemos a perversão, a mentira, os jogos em que os adultos vivem, quando dizem que está tudo bem. A criança percebe tudo o que se passa ali, mas olha para os adultos de quem depende e pensa que, para ter afeto, segurança e colo, o melhor é embarcar na loucura e tornar-se cúmplice da loucura, ou não vai aguentar o tilt, a dissonância.

É uma das maneiras pelas quais experienciamos o chamado stress pós traumático , quando somos postos em situações para as quais não temos referências. Entramos em dissonância profunda e isso causa-nos um trauma. A criança esquece a sua perceção e a verdade e adere à mentira dos adultos e vive no transe até morrer, a não ser que a meio do caminho faça coisas evolutivas e siga um caminho de compromisso com o seu próprio potencial, que mais tarde ou mais cedo somos convidados a fazer.

Caso contrário, vai viver a vida toda como mais uma peça de uma engrenagem mal oleada de duas forças: o desejo e o medo, num mundo em que vai ter que ser a melhor, a mais forte ou mais atraente, ou ter que se destacar, seja pela beleza ou pela inteligência. E por aí fora.

Isto é a vida do hamster a gerar energia. Como se cada um de nós fosse uma pilha: é uma matrix.

Se não nos questionamos, se não ganhamos objetividade relativamente ao meio familiar, psíquico, social, cultural e civilizacional do qual nascemos, nunca nos vamos descobrir como seres humanos. Vamos sempre ser uma extensão de uma civilização.

E o ser humano não está destinado a ser uma extensão de uma civilização, está destinado a ter potencial para uma consciência cósmica.

No mínimo, vou ser uma extensão da civilização, da cultura, da família, do karma familiar, do ADN de que nasci. Mas penso que sou livre porque posso escolher iPhone ou Android, ou se escolho carros ou casas. Mas é a mesma coisa, porque o ignorante com um euro não varia muito do ignorante com um milhão de euros, que só compra mais tralha. Por isso, abençoados os pobres, que poluem menos…

Há 250 anos estava a começar esta mudança civilizacional. Estamos em 2008 e vamos procurar mais coordenadas.

O marco histórico mais recente é a entrada de Plutão em Capricórnio em 2008. Nos dez anos que se seguiriam, de mais significativo, temos a segunda coordenada com a entrada de Neptuno em Peixes em Dezembro de 2012. É a segunda coordenada.

E mais recentemente, temos Urano, que esteve a passar em Carneiro desde maio de 2010 e entra definitivamente em Touro em março de 2019, onde vai estar até 2026. Estas são as principais coordenadas para percebermos os tempos atuais e a mudança civilizacional de que estou a falar.

O mundo para o qual fomos programados está a desaparecer, está em colapso. O mundo para o qual fomos educados, o mundo para o qual o nosso curso superior foi tirado, o mundo para o qual os nossos objetivos foram definidos, o mundo que nos legou uma definição de sucesso antiquada, com três séculos. Porque nós rebelamo-nos contra tudo, sobretudo na adolescência, contra os pais e fazemos o contrário do que eles são, no entanto, nunca questionamos a definição de sucesso.

Para sintetizar a primeira parte, nós estamos numa tremenda mudança. Se eu fosse um rato num labirinto, gostaria de ter uma imagem vista de cima, pelo menos teria alguma noção do conjunto.

Se não temos uma perspetiva ampla, como é que vamos dirigir a nossa vida?

Se não entendemos as oportunidades e as propostas que cada época nos oferece, como é que vamos colaborar com o inevitável?

Porque a escolha é se vais colaborar ou ser apanhado de surpresa enquanto a vida se cumpre a si própria, ou colaboramos ou mantemo-nos na anestesia, no transe e na negação e somos apanhados de surpresa.

Podemos fazer um rápido link entre os intelectuais da Alemanha, quando o Hitler começou a chegar ao poder, ainda antes, quando muitos intelectuais perceberam o que aí vinha e fugiram para os EUA, porque tinham visão. As massas foram apanhadas de surpresa.

Em Astrologia, o planeta que nos põe em contacto com esta visão para o movimento de evolução social, coletivo e para as tendências dos grupos de pessoas, é Urano – e este implica que haja um trabalho de individuação sobre si próprio, porque senão nunca vamos ter o equipamento para ligar a esta mente cósmica.

Há uma emissão de rádio a tocar e temos que construir os nossos aparelhos para a sintonizar: a nossa intuição.

Esse trabalho inclui, mas não se esgota, na objetivação do útero e da matriz da qual emergimos, não só o útero materno, o drama familiar, da cultura, da civilização. Porque Urano é a mente sem tempo.

Então, podemos construir um recetor para perceber os movimentos e a ferramenta que me ajudou a percebê-los foi a Astrologia. Porque me mostra símbolos e desenhos, mas que se referem a energias vivas. Ao fim de alguns 20 anos, elas começam a ganhar vida. É um trabalho que compete a cada um de nós, para que cada um se salve a si próprio e que possa dar a mão, não para salvar ninguém, mas para apoiar os outros que vêm ao lado.

Porque nenhum ser com o coração no sítio pode atingir a iluminação, a libertação e a consciência sozinho. Há uma qualidade de ser, que é uma boa aspiração para todos nós, um bom ideal para nós termos, que é a figura do Bodhisattva, um ser tão evoluído que não precisaria de voltar ao planeta escola e de reincarnar. Aprendeu. Não precisa de cá voltar, mas sente-se responsável por apoiar e colaborar na elevação e na evolução dos seres e ver-me livre da samsara, e não precisava de voltar mas, por amor, regresso para apoiar o crescimento dos irmãos.

Capricórnio pode ser também associado a esta figura do Bodhisattva, que é um mestre que se sente responsável pelo mundo. E que escolhe assumir responsabilidade.

Mas a primeira responsabilidade é de nós próprios, pela nossa emancipação. O que implica vermos o transe em que as pessoas vivem. Não é preciso muito, andamos pela rua e no trânsito, onde observamos o estado da consciência coletiva no quanto as pessoas facilitam a vida às outras. Estamos numa crise civilizacional, crise, “crisis” em grego significa crítico, crucial, encruzilhada, divisão, separação. Dois caminhos, cruz, cruzamento e crivo.

Então nós estamos num momento de crivo. O que é que aí vem?

Saturno também se juntou à equação, também está em Capricórnio e, no início de 2020, Júpiter, Saturno e Plutão vão os três estar em Capricórnio.

Isto, para mim, é um momento de cristalização e de início de qualquer coisa nova.

Agora, o que cristaliza depende de nós. O que cristaliza na nossa vida, depende de nós individualmente e o que cristaliza na vida coletiva também depende de nós individualmente.

Porque se formos ver para trás, na história, a que correspondem ciclos de Saturno-Plutão, correspondem sempre a fases de jogos de poder, lutas de poder, exercício de poder de nações sobre os povos, ou de nações entre elas. Eles têm ciclos de 35 anos, ora de 35 em 35 anos, Saturno faz conjunção Plutão e se formos ver na história, isto corresponde a períodos muito difíceis para as massas, a assassinatos, a tomadas de poder.

A que vamos ter será em Capricórnio e Capricórnio e significa estruturas e autoridades coletivas e sociais.

Temos Plutão, a necessidade de domínio e de poder.

E temos Saturno, a construção de estruturas que legislam e controlam.

De certa maneira, um dos ramos que vai sair desta conjunção é que os Estados vão apertar a vigilância sobre as pessoas, de muitas maneiras. Não é nada que já tenha começado a acontecer, especialmente desde o 11 de setembro, sob a capa do “para proteger os cidadãos vamos ter acesso às informações“, “para proteger os cidadãos vamos chipá-los”, “para proteger os cidadãos vamos tirar os direitos essenciais e mínimos à privacidade”.

Isto já começou, mas o que vai acontecer é aumentar. Se virem os países mais capricornianos no mundo, como a China, que se prepara para ser uma potência mundial. A China já está a elaborar o sistema de ranking dos cidadãos, em que fica tudo informatizado e se vocês quiserem pedir um empréstimo bancário, se quiserem ter um relacionamento, se quiserem fazer qualquer coisa, vocês têm um perfil que diz a que é que têm acesso e se são fiáveis ou não, em virtude da vossa história, do que ganham, do que consomem, do que votam, do que compram e isto é o que vai sair daqui num futuro não muito distante. Não falta muito.

Então, parece que estamos numa fase em que temos que reconhecer e honrar a energia de Saturno-Plutão em Capricórnio; a energia de Neptuno em Peixes; e a energia de Urano em Touro.

E esta seria a minha proposta para a segunda parte desta conferência: trabalharmos com estas três energias, o que é o que implica e como podemos honrar isto na nossa vida e na nossa consciência.”

FIM DA PRIMEIRA PARTE