Parabéns para Tod@s <3

Há quarenta e oito anos, neste dia

uma mulher travava – segundo rezam as escrituras, ou pelo menos o mito deste nascimento, nesta estória real ou se calhar inventada – o terceiro dia de batalha do seu longo trabalho de parto, e para dar à luz uma criança que viria a nascer contra todas as probabilidades, e apenas pela determinação – e coragem – desta mulher para trazer ao mundo uma criança improvável nascida de circunstâncias senão menos comuns, seguramente menos fáceis. Pais que olhavam com maus olhos uma filha solteira a ter um filho de um homem desconhecido e que não assumiu a sua parte de responsabilidade nesta criação conjunta (ou assumiu, e era precisamente essa a sua); uma sociedade tradicional e católica que não olhava com bons olhos o estatuto de “mãe solteira” (sabemos lá nós qual será a relação entre uma coisa e a outra); e uma mulher – uma rapariga – jovem, de vinte e poucos anos, com a vida toda pela frente – e daí em diante, com uma vida recém-nascida a exigir cuidados e atenção, e acima de tudo – que abdicasse da sua própria, em larga escala, para poder dedicar-se à nova vida que emergia de seu ventre, entre sangue suor e lágrimas,

e três dias de luta pelo milagre da vida.

Hoje,

no dia 7 de Março de 2023, 

quando o Sol se levantava no horizonte leste,

a Lua, cheia e brilhante, redonda e preenchida da luz oferecida – desde o “lado de lá” – pelo Sol, desaparecia no horizonte à medida que a Luz do sol surgia do lado oposto.

E eu fiquei a ver a Lua a descer no horizonte,

e eu fiquei a ver o Sol a erguer-se no outro.

E tive a ilustração perfeita do milagre da Vida, ou pelo menos da minha:

observei a Lua a desaparecer lentamente para dar lugar ao Sol;

a luz que se ia ofuscando para que uma nova, mais esplendorosa aparentemente, se erguesse no horizonte,

e agradeci a metáfora, o simbolismo, o rigor daquela ilustração divina

plasmada à minha frente, pelo milagre da Natureza,

a Lua desaparecendo abaixo do horizonte para dar lugar ao Sol.

E agradeci o sacrifício da minha mãe, e de todos os que viveram e vieram antes de mim, para que eu pudesse nascer.

Agradeci, como tive oportunidade de fazer de viva voz e olhos nos olhos à minha mãe antes de ela morrer, vai para nove anos, por ter largamente, e de tantas maneiras, abdicado da sua própria vida:

dos seus sonhos, do seu futuro, da sua liberdade (que lhe era tão própria, característica, e essencial à felicidade)

por ter abdicado da sua vida neste plano para que eu pudesse chegar, e vir ocupar o meu próprio lugar no horizonte.

E senti-me o ser mais abençoado deste mundo, agradecendo o sacrifício feito em meu nome, e de tudo aquilo que posso a fazer durante a minha própria curta, breve, passagem pelo mundo no seu horizonte visível – 

e que em nome de todo o Amor do qual eu nasci, indescritível e inominável, senti-me presenteado pelos Céus com a legenda da minha vida,

assim como pelos meus antepassados, em particular a minha mãe, 

pelo milagre da minha vida – pela possibilidade de existir,

quem sabe irradiar, e brilhar.

Sei que é esta a minha prenda, e a minha responsabilidade:

aproveitar a vida que me foi dada, em nome de todos quantos existiram antes de mim, para que eu pudesse vir-a-ser, 

e tornar-me

o maior legado possível e testemunho de Amor de todos quantos caminharam e sofreram e lidaram e se sacrificaram em nome de um futuro que nem sequer viriam a conhecer, ou reconhecer:

e uma vez mais, de dentro de mim, me observei a emitir o mesmo agradecimento inexprimível que uma vez, há quase nove anos, dei por mim a tentar articular à minha mãe, enquanto ela própria se eclipsava lenta e irreversivelmente com um cancro de pulmão, o orgão da tristeza:

e dei por mim a repetir silenciosamente o mesmo agradecimento

Obrigado Mãe, por teres abdicado da tua vida para que eu pudesse nascer e viver:

eu adoro a Vida, eu adoro estar vivo, obrigado Mãe!,

obrigado por teres – quase literalmente -dado a tua vida por mim.

Comprometo-me a fazer algo de bom com ela, por mim e à minha maneira, mas por Ti e por nós todos;

e se uma vez escreveste, e deixaste escrito, que se alguma coisa de bom fizeste no mundo foi seguramente ter-me a mim, digo-te eu agora:

que possa eu ser o melhor do que tu fizeste no mundo, 

e possa deus ajudar-me a ser o meu melhor,

a melhor versão de mim próprio,

ao pé disso

tudo o que eu possa fazer de mim e comigo será pouco 

para retribuir, qual Lua, toda a Luz e Amor recebidos deste Sol.

Obrigado Vida, eu adoro estar vivo,

e acabei de chegar, acabei de começar,

estou a acabar a todo o momento mas apenas a começar, e o melhor

ah!, o melhor está por vir

nestas vidas eternas que ciclos de nascimento e renascimento alguma vez apagarão

da memória e da alma, 

porque como diz o poeta,

mais uns momentos,

mais uns momentos de descanso,

e eu renascerei de outra mulher *

Parabéns para Mim e para todos os Seres de Boa-Vontade que sabem que a Vida, e o Mundo, são a oportunidade de nos doarmos,

e agradecermos assim 

todas as Graças recebidas <3