Sobre a dificuldade (e a improbabilidade) da Comunicação

Especialmente nestes dias de Sol e Mercúrio em Peixes com Neptuno, e Marte em Gémeos em quadratura ao cocktail,

e só para reconhecermos o quão frágil, difícil e improvável é a comunicação clara, inequívoca e fluida nestas circunstâncias 

– eu apenas imagino, se fosse cliente do Silicon Valley Bank, o angustiado estaria com as notícias, e principalmente, com as comunicações oficiais dos incompetentes de serviço –

deixa-me dar-te dois exemplos fresquinhos de Mercúrio/Neptuno, também conhecidos – por mim, que os baptizei carinhosamente assim agora mesmo – como “puta confusão“, ou então “checka bem as informações, certifica-te de que não estás a alucinar, vê bem onde deixaste as coisas, presta atenção aos pormenores, e revê bem o que escreveste – que isso ainda vai dar confusão“, para quem não gosta de economizar palavras, ou então de dizer puta.

Hoje de manhã, acabado de escrever o Ca_Fé da Manhã para o dia 14 de Março, mal acabo de postar o texto, apercebo-me de que afinal escrevera “41 de Março” no título – apesar de estar convencido (ou a alucinar) que tinha lido e revisto, e estava certo.

Mais tarde, à saída do supermercado, já na caixa, apercebo-me de que acabara de perder o telemóvel, segundos antes, não podia estar longe porque ainda tinha os headphones, wireless, blútú ou lá no que é, a bombar – o telemóvel, origem e fonte da música, funciona num raio de 10 metros e os russos, nos meus phónios, continuavam a “cantar” hip-hop no idioma do Dostoyevsky (não convém dizer Putin porque ele anda a assassinar vacinas e a despejar crianças dos orfanatos unicranianos, é um monstro! – mais vale dar-lhes hormonas, mutilar-lhes os genitais aos 5 anos, sodomizá-las durante um show cultural – na escola pré-primária -, e pôr-lhe uma bandeira democrata nas mãos)

– de modes que, pára tudo, que antes de sair desta caixa eu preciso voltar atrás, aos lineares e prateleiras já visitadas, para reconstituir o crime de amnésia por ser Dory, também eu 😉 – com tanta coisa,

tantas vezes

eu a ser eu, a minha mãe a abanar a cabeça, o olhar desapontado, não sei se olhando para mim, através de mim, ou lá para trás, antes de eu nascer, as palavras que nunca esqueci

– oh nuno!, oh nuno! – 

eu a rir-me da comédia de mim próprio a ser eu próprio e os russos a cantarem-me com força dostoyevsky stolitchnaya rabota rabota senhora precisa

vodka!

a vanda matos na caixa a dizer oh nuno mas vá lá ver

o rapaz atrás de mim, que eu mandei avançar à minha frente que ninguém tem culpa de eu ser peixes

pedindo-me o número de telefone, que me liga

eu nove um três dois um e o crl, voltando atrás e entrando pelo supermercado dentro, direitinho à última prateleira de onde tinha tirado um par, não era um par, era um pack, de cuecas

– catorze euros por 6 pares de cuecas?, oh dona aurora, um conto e duzentos – 

as palavras ecoando na minha cabeça, ou fora dela, não sei – eu nunca sei bem onde é que isto termina, ou vai acabar

os russos a cantarem o rapaz a ligar a vanda matos à espera o telefone a tocar

– mas no silêncio, que eu nunca o atendo – pra quê ouvi-lo, sequer?! –

eu a encontrar o telemóvel na prateleira das cuecas,

o mundo a encontrar a sua ordem novamente,

eu de volta para a caixa, agradecimentos e lamentos e converseta de circunstância, já se sabe, eu tinha ido ali era fazer compras, o máximo que podes esperar é trocar umas palavras de circunstância com um desconhecido – a não ser que estejas vivo, aí é como reencontrares um elemento da família depois de muitos natais emigrado em paris de frança

os russos a passarem-se, o beat cada vez melhor,

o telemóvel na mão e ainda bem porque senão como é que apresentava o cartão continente, para me controlarem, às minhas passagens, compras, despesas, e hábitos de consumo?, em troca de pontos para comprar caricas de cerveja. Cergal. Ou qualquer outra tampa desse género,

os russos recomeçam mas eu decido voltar a ouvir o novo beat do eminem, eu quero é que os russos s’a calem

(Ji XiPing I love you! ;-))

saio com as coisas pagas, vejo no telemóvel a chamada não atendida do rapaz na caixa, na fila atrás de mim, envio-lhe uma SMS só a agradecer a ajuda (e a dizer-lhe que se precisar de mim, alguma vez, que guarde o contacto – depois o meu censor interno diz que é excessivo e que basta agradecer a ajuda, ponto. Obrigado. Ponto. Assim faço, porque pelo menos a mim estou a ver se aprendo a obedecer; sem máscara, medos, subsídios para ser ovelha ou ritalina)

passados minutos recebo resposta a dizer que ora essa temos de ser uns para os outros, abençoo e concordo em silêncio e passam-se horas,

passado um bocado

– há bocadinho! – 

vejo novamente a mensagem do rapaz no telemóvel e tomo a decisão se a guardo, ou ao número, ou se apago e sigo leve

decido guardar o número e seguir leve na mesma, ponho-me a escrever uma identificação no campo “nome” nos contactos do telemóvel, decido escrever “Rapaz que me ajudou” como nome principal e “no supermercado” como apelido,

e reparo – felizmente reparo – que o cabrão do corrector emendou para “Rapaz que me abusou no supermercado”,

eu penso em Mercúrio Neptuno, levanto-me da rede ao Sol para vir escrever esta merda no computador à sombra, pensando – sem deixar de pensar – 

no quanto Mercúrio com Neptuno nos dificulta a vida, mas acima de tudo,

como Mercúrio sem Neptuno, quero dizer, mente árida sem sensibilidade nem arte,

nos mataria a todos, imediatamente,

sem direito a elegias

nem hip-hop russo no enterro, embora

– pagando bem por isso, há funerárias que fornecem wi-fi nos velórios –

caso interesse a alguém ter os convidados a postar fotos do evento

no instagram

no Patreon 

ou assim *