Sobre a procrastinação

Uma vez, numa noite fria,

Um homem foi para a cama quetinha

E começou a sentir vontade

de mijar.

E disse a si próprio,

Isto daqui a bocadinho adormeço, escuso de sair da cama, está tanto frio que se um homem cair da cama parte o pijama

– e se for suficientemente gordo, cai para os dois lados –

está tanto frio!,

eu não vou é a lado nenhum, vou-me deixar aqui ficar na caminha quetinha

até me passar

eu hei-de adormecer e depois esqueço a vontade que tenho

de mijar.

Passadas umas horas, várias horas da noite a bater crânio na insónia,

– ao ponto de ter chegado ao ponto de se lembrar da ex-mulher e no que ela lhe diria, naquela situação, pelo que conhecia e recordava dela –

Ah!, mosse dum cabrão, vai já!

(ela era algarvia e ainda por cima era Carneiro, mas daqueles dos bons – you shoot them in the head and they keep coming, sem perder Tempo – nem vida)

O homem às voltas na cama, com e sem aquela ex-mulher que tinha ido à vida há muito tempo, e que já não aguentava um homem que dava tantas voltas sobre si próprio sem nunca sair do sítio, como um paralítico espetado numa grelha de assar frangos

Paralisado e já quase com a urina a escorrer-lhe pelas pernas abaixo

(o frango, é com molho?!)

O homem às voltas na cama e a mulher também, mas na cabeça dele

Oh home!, vai já,

O home há horas a tentar adormecer apesar da bexiga a apitar há tanto tempo,

A dizer a si próprio isto há-de passar, é só adormecer,

Cada vez mais longe de adormecer, do descanso da bexiga, e de Si próprio,

A lembrar-se daquela mulher infernal mas sábia

Oh homem, vai já

(o sotaque vai aprimorando, ou sendo perdido, com o tempo – mas a Vida não, o Tempo não, o medo sim, a preguiça sim, o mijo não)

Oh homem, Mijas ou não?!

– este seria bem o tipo de homem que teria tudo a ganhar se tivesse o toque de Mijas,

mas não,

O homem às voltas na cama, sem mijar, a pensar a pensar,

Se calhar vou ter de acabar

por me levantar

e assim aqui fica, à laia de meia palavra entendida,

a saga de um homem irresponsável, cobarde e mental

e de mais uma noite perdida

vivida como um ensaio

para a aventura eventual que poderia vir a ser a sua Vida,

Enquanto – claro está – se sentia vítima da vida e continuava a ressentir-se, e a amaldiçoar,

todos aqueles com mais sorte que ele, e a quem ao início da noite

não dá vontade de mijar *